Esquiador brasileiro conquista ouro após superar conflitos de identidade e direitos de imagem
Lucas Pinheiro Braathen, o atleta que trouxe a medalha de ouro para o Brasil no Slalom Gigante nas Olimpíadas de Inverno de 2026, compartilha uma jornada marcada pela busca constante por identidade e pela coragem de romper com estruturas rígidas. Filho de pai norueguês e mãe brasileira, o esquiador sempre carregou consigo as características de ambas as culturas, mas foi no Brasil que encontrou o espaço para expressar plenamente quem é.
O conflito com a Federação Norueguesa e a decisão de mudar de país
Após iniciar sua carreira sob as cores da Noruega, Braathen anunciou uma surpreendente aposentadoria em 2023 devido a conflitos profundos com a federação local. "Eu me sentia dentro de uma caixa nessa confederação", revela o atleta. "Estava lutando para abrir espaço para a aceitação das diferenças entre os atletas, porque para mim são elas que representam o valor verdadeiro do esporte."
O ponto crucial do desentendimento foram os direitos de imagem. "Os atletas têm direito sobre a própria imagem", explica Braathen. "A opinião deles era que podiam fazer tudo com nossa imagem, nossa assinatura e nosso nome. Você pode acordar um dia e receber um e-mail da Federação informando que agora você é embaixador de uma marca com a qual não está alinhado."
O episódio da bandeira brasileira que simbolizou o rompimento
Um momento específico ilustra bem as tensões. Em 2021, após uma competição bem-sucedida, Braathen celebrou com a bandeira brasileira acima da cabeça ao som de samba. "Publiquei esse vídeo e a Federação queria me punir, mesmo sem haver nenhuma regra proibindo", conta. "Se não posso representar todas as cores que carrego, ali não é o meu lugar."
A redescoberta através do Brasil e a conquista do ouro
Após um ano afastado das competições, durante o qual explorou a moda e outras paixões, Braathen recebeu o chamado para retornar ao esporte - mas do seu jeito. Foi então que procurou a confederação brasileira. "Minha única exigência foi ter a liberdade de ser quem sou", afirma. "E isso eles me deram."
Hoje, com uma equipe completa de treinadores, preparador físico e fisioterapeuta, o atleta viaja o mundo representando o Brasil. Sua vitória no Slalom Gigante em 2026 não é apenas uma conquista esportiva, mas a materialização de uma jornada pessoal. "Essa medalha representa a diversidade brasileira", reflete. "O Brasil é um país multicultural. Se não fosse por essas diferenças, essa dualidade, eu não acho que iria conseguir trazer esse ouro."
A recepção nos dois países e a sensação de finalmente pertencer
No Brasil, Braathen foi recebido com "muito amor, alegria e orgulho". Já na Noruega, as reações foram mistas. "Parte da conversa é 'nossa, ele iria representar nossas cores, é uma pena'. E o outro lado é 'existem vários caminhos para seguir nossos sonhos'", relata. "Isso só me deixa muito feliz, porque mesmo que você não concorde com o meu jeito, eu criei uma conversa muito saudável."
Sobre a pergunta inevitável - se voltaria a competir pela Noruega - a resposta é categórica: "De jeito nenhum. O Brasil é um fechamento de ciclo. Eu realmente sinto que foi escrito."
A essência da história: encontrar casa na própria diversidade
"Essa dificuldade com identidade é a essência da minha história", confessa Braathen. "Na minha infância, vivia tentando achar minha casa e realmente nunca senti que achei. Cresci na Noruega como brasileiro, e no Brasil, sou um pouco gringo. Na infância, foi bem difícil, mas, crescido, eu entendo que esse é o meu superpoder."
O atleta encontrou finalmente um lugar onde suas múltiplas identidades não são um problema, mas uma força. "Como esquiador, sempre viajando, tentando achar neve, as montanhas, encontrei uma comunidade de outras crianças da mesma realidade, e nesse grupo, encontrei uma grande diversidade. Foi a primeira vez que eu me senti em casa, porque todo mundo nesse grupo era um pouco estranho."
E para deixar claro onde está seu coração, quando questionado sobre quem torceria em um hipotético Brasil x Noruega na Copa do Mundo de futebol, a resposta é imediata: "Brasil, sem dúvidas."



