Passadas três décadas, a história da suposta aparição de um ser extraterrestre em Varginha, no interior de Minas Gerais, permanece mais viva do que nunca no imaginário dos moradores. O episódio, ocorrido em 1996, consolidou-se como um dos mais emblemáticos da ufologia no Brasil, dividindo opiniões entre crentes e céticos, mas, acima de tudo, transformando-se em um fenômeno cultural duradouro que projetou o nome da cidade para o mundo.
O episódio que marcou uma geração
Em janeiro de 1996, o relato de três jovens mulheres abalou a rotina da pacata Varginha. Elas afirmaram ter visto uma criatura de aparência incomum, com olhos avermelhados e pele escura, em um terreno no bairro Jardim Andere. A descrição da suposta entidade, rapidamente apelidada de "ET de Varginha", ganhou proporções gigantescas. A cobertura da imprensa local e internacional alimentou a narrativa, que foi eternizada em livros, documentários e produções audiovisuais nacionais e estrangeiras.
Enquanto autoridades da época tentaram desmistificar o caso, atribuindo o avistamento a um "casal de anões" ou a um "mudinho", os testemunhos e a repercussão já haviam plantado uma semente no solo fértil do imaginário popular. O mistério, que nunca foi oficialmente solucionado, criou raízes profundas na identidade da cidade.
Do folclore para a pele e o prato: o ET vira marca
A imagem do extraterrestre de Varginha ultrapassou a barera da simples lenda urbana para se tornar um símbolo de orgulho e identidade local. Estúdios de tatuagem na região registram uma demanda constante por desenhos que homenageiam a criatura. "O ET de Varginha é bem recorrente. A pessoa mora aqui um ano e quer representar a cidade de alguma maneira, então ela faz uma marca do ET ou da nave", relata a tatuadora Aléxia Vilela.
O comércio também abraçou o fenômeno. Empreendedores viram no tema uma oportunidade única de negócio. Um exemplo notável é uma pizzaria local que mergulhou de cabeça no universo espacial. Seu cardápio criativo oferece sabores como calabresa cósmica, peperone intergaláctico e frango com catupiry espacial. "Decidi trazer essa essência, transformar isso em comércio. Então trouxe o sabor junto com o ET", explica Lucas Rodrigues Barros, proprietário do estabelecimento.
Um legado que fortalece a coesão social
Especialistas apontam que o uso da imagem vai muito além de uma estratégia mercadológica. A socióloga Terezinha Richartz explica que o símbolo desempenha um papel crucial na coesão da comunidade. "Quando alguém vê a imagem do ET em diversas formas, lembra do que ele representa. Isso do ponto de vista social é muito importante", afirma. A história compartilhada, seja como crença ou como folclore, cria um vínculo comum entre os habitantes, reforçando uma memória coletiva única.
Para muitos varginhenses, o "ETzinho" é um cartão de visitas inesperado, mas eficaz. Aléxia Vilela comprova: "Sempre que estou fora de Varginha, faço questão de falar: 'sou da cidade de Varginha!'. Viajo muito a trabalho e até na Alemanha já reconheceram o ETzinho e sabem da história".
Trinta anos depois, entre a dúvida e a certeza, o caso do ET de Varginha resiste. Ele não é mais apenas uma história sobre um possível encontro com o desconhecido; é uma narrativa poderosa sobre como uma comunidade pode se apropriar de um episódio singular e transformá-lo no cerne de sua cultura, projetando-se com orgulho para o Brasil e para o mundo.