Uma das regras que deveriam ser obrigatórias ao adaptar games para o cinema é trazer para a telona o mesmo fator diversão que os jogos proporcionam. Felizmente, os realizadores de “Mortal Kombat 2”, incluindo James Wan, de "Invocação do Mal", que assina a produção, entenderam isso. Eles conseguiram criar uma sequência que não só supera o filme original em quase todos os aspectos, mas também permite que o público em geral, não apenas os fãs da franquia, acompanhe e aproveite a nova aventura.
O novo filme, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (7), abandona o tom pomposo e falsamente sério do anterior e se concentra no melhor dos games: muitas lutas violentas, com sangue aos montes, além de golpes e finalizações que alegram o espectador, seja ele experiente nos jogos ou não. O filme também se beneficia da adição de um humor mais convincente e conta com um protagonista muito mais carismático e divertido. Uma correção mais que necessária para um problema grave do longa anterior.
Enredo e personagens
A trama do novo filme começa praticamente onde a primeira parte parou e é centrada em Johnny Cage, interpretado por Karl Urban, o Billy Bruto da série "The Boys". Ele é um astro de filmes de ação em decadência, transportado por Lord Raiden (Tadanobu Asano) para a dimensão da Exoterra (Outworld). O objetivo é formar um time de guerreiros para combater as forças do imperador Shao Khan (Martyn Ford) no Mortal Kombat. Inicialmente relutante, Cage se integra ao grupo formado por Liu Kang (Ludi Lin), Sonya Blade (Jessica McNamee), Jax (Mehcad Brooks) e Cole Young (Lewis Tan) para lutar no torneio, que não tem regras nem limites. Se a equipe perder para Shao Khan e seus asseclas, o planeta Terra corre grande perigo.
Fatality sem complicação
O que torna "Mortal Kombat 2" superior ao primeiro filme desse reboot, lançado em 2021, é que seus realizadores entenderam que não precisavam inventar demais para agradar os fãs e até quem nunca pegou num joystick. Bastou reunir os personagens que a franquia do jogo, iniciada em 1992, consagrou e colocá-los para lutar, sem maiores complicações. O diretor Simon McQuoid, que estreou em longas com o primeiro filme há cinco anos, mostra-se mais confiante e melhora bastante na condução das cenas de luta. Ele recria alguns confrontos e golpes específicos sem deixar as sequências truncadas ou sem empolgação. Embora não seja tão criativo quanto John Woo, ele entrega momentos divertidos e sangrentos, características que consagraram a série de jogos e que o público sempre quis ver bem feitos nos filmes.
As cenas só não são tudo o que poderiam ser devido a uma escolha errada de roteiro e montagem. Enquanto na primeira adaptação de 1996 era possível acompanhar uma luta seguida da outra, o novo filme decidiu que alguns confrontos deveriam acontecer ao mesmo tempo. Assim, os montadores "pulam" de uma disputa para outra no meio das batalhas, o que tira um pouco da emoção. Ainda assim, dá para curtir esses momentos, especialmente as finalizações radicais dos lutadores.
Roteiro e desenvolvimento
Apesar dessa falha, o roteiro de Jeremy Slater funciona bem, criando boas piadas e desenvolvendo os personagens de forma correta. Especialmente ao tornar Johnny Cage um protagonista mais interessante do que Cole Young, que estrelou o primeiro filme. O personagem, criado para o longa de 2021, não caiu nas graças do público e foi substituído por alguém mais conhecido e carismático. A troca funcionou e garantiu o bom resultado da sequência. O roteirista também acertou ao criar um arco envolvendo Kitana (Adeline Rudolph), princesa de um dos reinados dominados por Shao Khan e filha adotiva do vilão, e Jade (Tati Gabrielle), sua guardiã. Amigas, as duas se veem em conflito por causa de escolhas durante o torneio. Além de interessante, a questão entre as guerreiras ajuda a fazer a trama andar além das lutas sangrentas. Só incomoda um pouco a tradição dos jogos de ressuscitar personagens que já morreram, causando estranheza nos não iniciados.
Karl Urban: o grande destaque
O que realmente garante a diversão em "Mortal Kombat 2" é a adição de Karl Urban ao elenco. O ator já pode se candidatar ao título de "Rei das Franquias", tendo se destacado em séries como "O Senhor dos Anéis", "Star Trek" e "Bourne". Agora, finalmente será o principal de uma franquia de renome. Urban se sai bem como o astro de cinema (inspirado em Jean-Claude Van Damme para os jogos) que já viveu dias melhores e se envolve em algo que não compreende, mas que o faz perceber que pode voltar a ser relevante. O ator faz rir com sua arrogância e jeito rabugento, conquistando o público rapidamente. Outro destaque são os filmes fictícios de Johnny Cage, que misturam produções antigas de Schwarzenegger ou Stallone com a franquia "Missão: Impossível". Não tem como não sorrir nessas sequências hilariantes.
Elenco de apoio
O resto do elenco não se destaca tanto quanto Urban, mas também não atrapalha. Josh Lawson, como Kano, chama a atenção com suas atitudes sujas e debochadas, chegando a citar uma fala conhecida de "Deadpool & Wolverine" numa cena que pode gerar risos. Com uma ponta de Ed Boon, um dos criadores do jogo original, "Mortal Kombat 2" pode não ser a melhor adaptação de games para o cinema. Para alguns, pode não superar a primeira versão dos anos 1990. Mas cumpre o objetivo de tirar o gosto ruim que o primeiro longa deixou e aponta um caminho para futuras produções desse universo. Dá para se divertir bastante, sem maiores exigências. Fight!



