O renomado cineasta iraniano Jafar Panahi, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, declarou sua intenção de retornar ao Irã, mesmo sabendo que uma sentença de prisão o aguarda em seu país de origem. A decisão foi anunciada durante sua turnê de promoção nos Estados Unidos para o filme "Foi Apenas um Acidente", que concorrerá ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2026.
Condenação e desafios no Irã
Em dezembro, o Tribunal Revolucionário Islâmico em Teerã condenou Panahi a um ano de prisão por supostas "atividades de propaganda" contra o Estado iraniano. A sentença também incluiu uma proibição de viajar para fora do país por um período de dois anos. Apesar da gravidade da situação, o diretor mantém sua posição firme.
Em entrevista ao Hollywood Reporter, Panahi foi categórico: "Para mim, não faz diferença o que as pessoas pensam ou entendem sobre a minha decisão. O importante é ser fiel ao que eu sinto". Ele destacou que não está sozinho nessa luta, citando outros colegas cineastas que enfrentam repressões similares.
Solidariedade e contexto cultural
Panahi mencionou casos específicos de perseguição no meio cinematográfico iraniano. Ali Ahmadzadeh teve seu set de filmagem invadido e equipamentos confiscados, sendo obrigado a pagar aluguel diário por equipamentos que não pode usar. Já os diretores Behtash Sanaeeha e Maryam Moghaddam, após o sucesso internacional de "Meu Bolo Favorito", estão proibidos de sair do Irã e de trabalhar.
"Todos nós compartilhamos essa dor e todos nós aceitamos o preço por ela", afirmou Panahi, reforçando um senso de comunidade e resistência. Ele explicou que sua conexão com o Irã é profunda e fundamental para seu trabalho: "Conheço os murmúrios diários daquele país, daquela cultura e daquela sociedade - e é aí que posso trabalhar".
Trajetória de resistência e reconhecimento
A carreira de Jafar Panahi é marcada pelo confronto com as autoridades iranianas. Ele já foi preso duas vezes em seus mais de 30 anos de profissão. A primeira detenção ocorreu em 2010, após ser acusado de apoiar o candidato reformista Mir-Hossein Moussavi. A mais recente foi em 2022, quando foi solto após realizar uma greve de fome.
Seu último filme, "Foi Apenas um Acidente", uma coprodução entre Irã e França, conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em maio deste ano. A obra agora está na corrida pelo Oscar de melhor filme internacional de 2026, onde poderá competir lado a lado com a produção brasileira "O Agente Secreto".
Em passagem anterior pelo Brasil, em entrevista à Folha de S.Paulo, Panahi já havia criticado a postura do governo brasileiro, afirmando que o país privilegiava relações econômicas com o Irã em detrimento dos direitos humanos. Para o cineasta, foi uma escolha política clara entre valores e interesses financeiros.
O futuro e o preço da liberdade artística
A declaração de Panahi sobre seu retorno ao Irã ressoa como um ato de coragem e afirmação de identidade. "É o lugar onde aceitei todos os desafios e todos os preços de ser eu mesmo", concluiu o diretor. Sua decisão joga luz sobre o custo pessoal e profissional que artistas em regimes autoritários frequentemente precisam pagar para manter sua voz e sua arte autênticas.
Enquanto isso, a comunidade cinematográfica internacional observa, torcendo para que a história do cineasta premiado não tenha um capítulo trágico nas prisões iranianas, mas sim uma continuação de sua notável e corajosa produção artística.