A Interseção Entre Carnaval e Poder: Como Políticos Moldam os Enredos das Escolas de Samba
As escolas de samba, verdadeiros espelhos da sociedade brasileira, sempre refletiram em seus desfiles os acontecimentos e personalidades que marcam a história nacional. Essa relação, por vezes de exaltação, outras de crítica mordaz, cria um rico mosaico cultural onde política e folia se entrelaçam de forma única e reveladora.
As Raízes Históricas: Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek na Avenida
Desde os primórdios, figuras políticas de grande relevância encontraram espaço nos enredos carnavalescos. Em 1956, no alvorecer do governo de Juscelino Kubitschek, a Mangueira apresentou Exaltação a Getúlio Vargas: emancipação nacional do Brasil. Este enredo não apenas homenageava Vargas, mas simbolizava a continuidade do projeto nacional-desenvolvimentista que ele iniciou e JK buscava ampliar.
Anos mais tarde, em 2000, durante as comemorações dos 500 anos da chegada dos portugueses, as escolas promoveram um carnaval temático. A Portela trouxe Trabalhadores do Brasil: a época de Getúlio Vargas, reforçando a presença do ex-presidente no imaginário popular. Já Juscelino Kubitschek também recebeu seu destaque, como na Mangueira de 1981 com De Nonô a JK, e na Leão de Nova Iguaçu em 2002, com Do esplendor diamantino aos sonhos dourados de Juscelino.
Deboche e Crítica: Temer e Bolsonaro Sob o Olhar Carnavalesco
Nem todas as aparições políticas na Sapucaí são de caráter laudatório. Em 2018, a escola Paraíso do Tuiuti, com o enredo Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?, introduziu o icônico vampirão do Tuiuti. Nesta alegoria, o então presidente Michel Temer foi retratado na última carro, denominada Navio neotumbeiro, usando a faixa presidencial recheada de dólares, uma crítica contundente à sua gestão.
Já em 2020, a Acadêmicos de Vigário Geral, do grupo de acesso, apresentou O conto do vigário, enredo que explorava mentiras e trapaças na história do Brasil. O desfile culminou com um palhaço gigante usando a faixa presidencial e fazendo gestos que simulavam o uso de uma arma, uma clara referência ao então presidente Jair Bolsonaro e seu discurso polêmico.
Lula: Da Esperança em 2003 à Homenagem Polêmica em 2026
A figura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva também tem seu lugar na avenida. Em 2003, a Beija-Flor de Nilópolis apresentou O povo conta sua história, saco vazio não para em pé (a mão que faz a guerra faz a paz). O enredo exaltava o combate à fome e à desigualdade social, em nítida referência ao programa Fome Zero, e incluía uma escultura de Lula com 9,5 metros de altura, simbolizando um clima de esperança popular.
Agora, em 2026, a Acadêmicos de Niterói, estreante no Grupo Especial, arrisca com o enredo Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do povo. Esta homenagem ocorre em pleno ano eleitoral, onde Lula busca a reeleição, marcando um fato inédito: é a primeira vez que um presidente em exercício é homenageado durante uma campanha eleitoral em que ele próprio é candidato.
O Risco e a Inovação: Contextualizando a Aposta de Niterói
A decisão da Acadêmicos de Niterói não é trivial. Sabendo das dificuldades para uma agremiação recém-chegada permanecer na elite do carnaval, a aposta em um enredo claramente político e atual é audaciosa. Enquanto figuras como Vargas e JK foram lembradas em contextos históricos mais distantes, Lula é homenageado em meio à ebulição política contemporânea.
Este movimento reflete como as escolas de samba continuam a pulsar no compasso da história, seja através de exaltação, deboche ou, como neste caso, uma homenagem que mistura saga pessoal e contexto eleitoral. A escola está disposta a transformar a trajetória do filho da dona Lindu em um espetáculo que pode definir seu futuro no carnaval carioca.