Marty Supreme: Crítica analisa altos e baixos do filme indicado ao Oscar
Crítica de Marty Supreme: altos e baixos do filme

Marty Supreme: Uma análise crítica do filme indicado ao Oscar

Poucas produções cinematográficas de 2025 conseguiram iniciar com tanta força e promessa quanto Marty Supreme. É possível afirmar, sem exageros, que talvez nenhum outro longa-metragem tenha alcançado um começo tão instigante e frenético neste ano. A primeira hora da obra subverte habilmente os clichês tradicionais dos filmes esportivos, mergulhando no universo competitivo do pingue-pongue na Nova York dos anos 1950, e surpreende os espectadores com um crescendo narrativo verdadeiramente notável.

O brilho inicial e as indicações ao Oscar

Este impacto inicial é sustentado principalmente por três pilares fundamentais: as atuações brilhantes de Timothée Chalamet, conhecido por seu trabalho em Duna, e de Odessa A'zion, que marcou presença em I love LA, aliadas à direção ágil e precisa de Josh Safdie. O cineasta faz sua estreia solo após uma série de trabalhos bem-sucedidos em parceria com seu irmão, Benny Safdie, incluindo a aclamada produção Joias brutas. À primeira vista, a qualidade técnica e artística do filme parece justificar plenamente as nove indicações ao Oscar que recebeu recentemente, anunciadas na quinta-feira, dia 22.

No entanto, essa impressão positiva inicial dura pouco tempo. Talvez empolgado pelo sucesso da abertura, o longa-metragem, que já está em cartaz nos cinemas brasileiros, entra em um loop cansativo de trambicagens protagonizadas pelo personagem central. O jovem jogador, genial mas profundamente egocêntrico, escapa repetidamente por um triz de cada situação complicada, preparando-se para o próximo golpe. A revelação de que este atleta fictício, que superficialmente segue o padrão das cinebiografias esportivas, é também um vigarista contumaz, inicialmente surge como uma novidade refrescante, mas gradualmente se transforma em uma armadilha narrativa que prende e limita o desenvolvimento da trama.

A perda de propósito e as questões levantadas

Por volta da quinta armação elaborada pelo rapaz de bigodinho ralo e rosto marcado pela acne, ou da sexta vez que uma mulher incrível o perdoa por atitudes consideradas as maiores canalhices já registradas no cinema, o espectador inevitavelmente começa a se questionar. A primeira reflexão que surge é sobre como Josh Safdie conseguiu transformar alguns dos atributos mais fortes da primeira metade do filme em suas principais fraquezas na sequência. A segunda, e talvez mais crucial, é: por que motivo o público deveria continuar se importando com essas personagens?

É importante destacar que o equilíbrio nem sempre é um elemento necessário em uma produção cinematográfica. Em muitos casos, a falta de equilíbrio pode até mesmo contribuir para a força narrativa. No entanto, torna-se difícil não questionar se a antiga parceria dos irmãos Safdie não ajudava a conter os impulsos mais destrutivos de cada um. Enquanto Benny Safdie entregou uma história tão mundana em Coração de lutador: The Smashing Machine, lançado em 2025, que acabou se tornando uma das mais chatas do ano, Josh Safdie praticamente fez o oposto em Marty Supreme.

Dois extremos do cinema esportivo

Ambas as produções representam exemplares muito bem realizados do gênero de filmes esportivos, ainda que sejam diametralmente opostas em relação ao ritmo e à intensidade narrativa. As duas obras compartilham uma estrutura esquemática similar e, infelizmente, a mesma perda de propósito em determinado ponto da trama. Esta característica comum revela um desafio recorrente nas narrativas cinematográficas contemporâneas.

O palco para Timothée Chalamet

Marty Supreme serve, pelo menos, como um palco magnífico para Timothée Chalamet desfilar todo o seu invejável alcance atoral e carisma natural. Para uma parcela do público, este aspecto pode ser suficiente para justificar a experiência cinematográfica. Com sua duração de 2 horas e 30 minutos, porém, muitos espectadores sentirão falta de uma história mais sólida e coesa.

Não se trata de afirmar que o roteiro desenvolvido por Josh Safdie e seu antigo parceiro de Joias Brutas, lançado em 2019, e Bom Comportamento, de 2017, Ronald Bronstein, seja desprezível ou mal elaborado. É possível compreender algumas das intenções narrativas dos autores. Infelizmente, muito do que aparece na tela já foi realizado anteriormente – e com qualidade superior – pelo clássico Depois de horas, produção de 1985.

A Nova York dos anos 1950

Para ser justo, é importante reconhecer que a Nova York dos anos 1950 apresentada no filme não tem paralelos no cinema das últimas décadas. Suja, barulhenta e pulsante com vida, a metrópole que ganha forma nas cenas é um mundo à parte que merecia ser explorado com maior profundidade e detalhamento. Esta ambientação histórica constitui um dos pontos altos da produção.

O elenco de apoio e destaque especial

O elenco talentoso ajuda Chalamet a manter a energia de seu personagem, um verdadeiro calhorda, em níveis elevados. Veteranas consagradas como Gwyneth Paltrow, lembrada por sua atuação em Vingadores: Ultimato, ou novatos promissores como o rapper Tyler the Creator, levantam bolas narrativas interessantes para que Chalamet possa cortar com maestria. Entre todos, Odessa A'zion talvez seja a única que não se contenta com o status de simples escada para o protagonista, saltando sobre os demais com presença marcante.

Apesar de sua personagem também se juntar ao exército de enganados e cúmplices do protagonista, a atriz de 25 anos desafia não apenas seu parceiro de cena, mas provavelmente o próprio roteiro, com uma força furiosa e sutil que merecia, sem dúvida, uma indicação ao prêmio da Academia. Sua performance destaca-se como um dos elementos mais memoráveis da produção.

Em resumo, Marty Supreme é uma obra cinematográfica que começa com estrondo, sustentada por performances excepcionais e uma direção competente, mas que perde parte de seu fôlego e propósito na segunda metade, deixando o espectador com a sensação de que poderia ter sido mais do que realmente se tornou.