O cenário cultural brasileiro viveu um momento histórico no último domingo, 11 de janeiro de 2026, mas a celebração não foi unânime. O ator Wagner Moura subiu ao palco do 83º Globo de Ouro, em Los Angeles, para receber o troféu de Melhor Ator em Filme de Drama, tornando-se o primeiro brasileiro a conquistar a honraria.
Seu discurso, proferido em português, foi uma ode ao país: "Para todo mundo no Brasil, assistindo isso agora: viva o Brasil, viva a cultura brasileira". A produção que o consagrou, 'O Agente Secreto', dirigida por Kleber Mendonça Filho, também levou o prêmio de Melhor Filme de Língua Não-Inglesa, consolidando uma noite de grandes conquistas para a audiovisual nacional.
Celebração versus crítica: a reação da direita brasileira
Contudo, o que deveria ser motivo de orgulho coletivo rapidamente se transformou em um novo campo de batalha nas guerras culturais que marcam o debate público no Brasil. Figuras proeminentes da direita política e religiosa manifestaram duras críticas ao ator e à sua obra, ignorando o feito artístico e focando em posicionamentos políticos.
A vereadora de São Paulo Janaína Paschoal (PP) comparou a cobertura da vitória a práticas de regimes autoritários. Em suas redes sociais, ela afirmou: "É típico de ditaduras, o governo enaltecer tal prêmio, em sucessivas postagens, dos mais diversos órgãos; e calar sobre a Revolução iraniana".
Já o deputado federal Mario Frias (PL), ex-secretário de Cultura no governo Bolsonaro, foi direto ao atacar o artista. Ele afirmou que Wagner Moura é "sustentado por um Estado corrupto" e o acusou de apoiar ditaduras, citando os governos de Lula, Maduro e Chávez. "Esse sujeito posa de defensor da democracia enquanto apoia ditaduras", escreveu.
A polêmica em torno de 'O Agente Secreto'
O cerne da controvérsia, no entanto, vai além da pessoa do ator e atinge o tema central do filme vencedor. 'O Agente Secreto' revisita um período sensível da história brasileira: a Ditadura Militar, focando em casos de perseguição e tortura na cidade do Recife, durante a década de 1970.
Para setores da direita, a obra representa uma narrativa que eles buscam constantemente minimizar ou apagar dos registros históricos. O líder religioso Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, entrou na polêmica lembrando que Wagner Moura já chamou o ex-presidente Jair Bolsonaro de fascista. Em tom de deboche, o pastor sugeriu que o ator fosse "morar em Cuba" e o criticou por supostamente apoiar um "governo corrupto".
As críticas se concentraram em uma suposta propaganda governamental e no apoio do artista a causas progressistas, desviando o foco do reconhecimento internacional da qualidade técnica e artística do filme.
Um capítulo na guerra das narrativas
O episódio ilustra com clareza como a cultura e a arte se tornaram territórios disputados na polarização política brasileira. A vitória reluzente em um dos prêmios mais prestigiados do cinema internacional foi recebida não como um triunfo nacional, mas como um ponto a ser contestado dentro de uma narrativa política mais ampla.
Enquanto parte da sociedade celebra o reconhecimento global de um produto cultural brasileiro, outra parte enxerga nele uma afronta aos seus valores e uma revisão histórica inaceitável. A proximidade do Oscar, para o qual o filme agora tem chances reais, promete acirrar ainda mais os ânimos.
Independentemente da polêmica, o fato é que Wagner Moura e a equipe de 'O Agente Secreto' escreveram seu nome na história do cinema. A discussão que se seguiu, porém, mostra que no Brasil atual, até um troféu internacional pode ser lido através das lentes da divisão política, revelando feridas históricas que ainda estão longe de cicatrizar.