A diretora brasileira Luciana Malavasi vive um dos momentos mais marcantes de sua carreira. Enquanto seu longa-metragem 'O Que Sobrou do Céu' integra o VDF Showcase, dentro do Marché du Film, no Festival de Cannes, o curta 'O Novo Corpo' amplia sua circulação internacional e acaba de ser selecionado para o Hard:line Film Festival, na Alemanha, um dos principais eventos europeus dedicados ao cinema de gênero.
Com uma linguagem autoral que mescla suspense, desconforto e reflexões sobre a vulnerabilidade feminina, a cineasta conversou com a reportagem sobre o impacto de chegar a Cannes, os bastidores do mercado audiovisual, a força do horror como ferramenta política e a necessidade de mais espaço para diretoras brasileiras no circuito internacional.
Horror como ferramenta de desconforto
'O Novo Corpo' transita por horror, fantasia e ficção científica, gêneros que lidam com o limite entre o real e o imaginário. Sobre o que a atrai nesse território, Malavasi explica: 'É curioso porque, quando escrevi o filme, há quatro anos, não pensei em fazer um filme de horror. Ele simplesmente aconteceu a partir dos atravessamentos que tenho como mulher e da forma como recebo o mundo. O horror surgiu desse incômodo constante diante da realidade que vivemos hoje.'
No filme, mulheres são retratadas como uma nova carne de consumo dentro de um universo distópico. 'É absurdo, claro, mas a provocação é justamente essa: até que ponto nos acostumamos ao absurdo? Vemos guerras, feminicídios, agressões e violências diariamente, e a vida segue. O horror entra como ferramenta para gerar desconforto e, talvez, recuperar um pouco da sensibilidade e da empatia que o mundo perdeu', afirma.
Para a diretora, o fantástico abre possibilidades cinematográficas de transformar incômodos em imagem. 'Ele permite brincar mais com as sensações do público e criar experiências emocionais mais intensas', completa.
Pressão do mercado e identidade autoral
O trabalho de Malavasi vem ganhando força no circuito internacional. 'O Novo Corpo' teve estreia mundial no Fantastic Fest, um dos maiores festivais de cinema de gênero do mundo, onde ela foi a única diretora latina de sua categoria. O filme seguiu para festivais no Brasil, Alemanha e agora terá estreia na Noruega. 'É muito bonito ver o filme ganhando esse alcance', celebra.
No entanto, a diretora destaca a pressão do mercado. 'Hoje participo de mercados nacionais e internacionais exercendo também meu lado produtora, porque cinema depende de orçamento, de parceiros, de viabilização. O mercado exige formatos, caixas e entendimento estratégico. Ao mesmo tempo, precisamos lutar para preservar nosso cinema autoral. Senão, facilmente somos engolidos', alerta.
Ela lembra que seu primeiro longa, 'O Que Sobrou do Céu', só foi possível graças às políticas públicas brasileiras. Agora em pós-produção, o filme já trabalha sua circulação internacional. 'Cinema não se faz sozinho. Existe uma dança delicada entre manter a visão da direção e entender como o mercado funciona. O filme precisa existir, circular e encontrar seu público', reflete.
'O Que Sobrou do Céu' em Cannes
O longa chega ao Marché du Film ainda em fase de pós-produção, com tema forte de vulnerabilidade e salvação espiritual. 'É muito importante. Vamos participar do showcase da VDF Connection ao lado de outros filmes internacionais e apresentar cenas e trechos para distribuidores, agentes de vendas e programadores. Esse movimento mostra que o trabalho de um filme começa muito antes da estreia', explica Malavasi.
O filme é descrito como um thriller dramático, mais próximo da suspensão e do suspense psicológico. 'Ainda fala sobre vulnerabilidade feminina, manipulação e controle, mas de uma forma mais sutil e muito ligada à nossa realidade atual', diz a diretora.
Desafios para diretoras brasileiras
O olhar feminino tem sido cada vez mais valorizado, mas ainda enfrenta desafios estruturais. 'Acho que estamos começando a abrir uma trilha, mas ainda é muito difícil. Nos festivais em que participei, quase sempre havia uma ou duas diretoras mulheres no máximo. Muitas vezes eu era a única mulher no palco', relata Malavasi.
Ela defende que o olhar feminino faz diferença porque as vivências são diferentes. 'Uma diretora mulher inevitavelmente vai trazer outro tipo de sensibilidade, de dor, de percepção do mundo. Mas oportunidades ainda são fundamentais. As mulheres continuam precisando provar muito mais. Precisamos de mais pessoas, especialmente mulheres em posições de decisão, apostando em novas cineastas. Porque, se continuarmos circulando sempre entre os mesmos nomes, o novo nunca aparece', argumenta.
Figurino como extensão da narrativa
Em 'O Novo Corpo', o figurino funciona quase como extensão da narrativa. As personagens aparecem embaladas em plástico, como carnes à venda. 'Isso nasceu de um trabalho incrível entre direção de arte e figurino. Aquelas imagens ajudam a construir o impacto emocional do filme. Sempre que o curta é exibido, as pessoas falam do plástico no corpo das mulheres porque é algo muito chocante visualmente', destaca.
Malavasi tem admiração pelos profissionais de arte. 'Muitas vezes o público fala apenas do diretor ou dos atores, mas a verdade do cinema também passa completamente pela construção visual', afirma.
Fenômenos da cultura pop
Sobre o burburinho em torno de 'O Diabo Veste Prada 2', que reacendeu discussões sobre moda, poder e cultura pop, a diretora opina: 'Acho maravilhoso quando um filme lota salas de cinema. Isso mostra a força da cultura pop e prova que o cinema continua vivo. Filmes como esse movimentam debates, geram identificação e mostram a potência da indústria audiovisual quando existe investimento pesado em marketing.'
Ela faz uma provocação: 'Por que apenas projetos considerados 'seguros' recebem apostas tão grandes? O marketing funciona. Quando existe investimento, o público sabe que o filme existe. Talvez o mercado pudesse arriscar mais também em outros tipos de cinema, em novas vozes, em projetos autorais. Porque, quando há investimento e visibilidade, os filmes realmente conseguem acontecer', conclui.



