O ano de 2025 entrou para a história de Santa Catarina com um triste recorde: cem pessoas perderam a vida durante ações policiais no estado. Este é o maior número desde o início da série histórica, em 2008, conforme dados divulgados pela Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP).
O balanço revela um aumento significativo de 26% em relação ao ano anterior. Em contraste, nenhum agente de segurança pública foi morto em confronto entre janeiro e dezembro de 2025.
Efetividade ou excesso de força? O debate sobre a letalidade
O salto nos números reacende o debate entre a efetividade no combate ao crime e possíveis excessos no uso da força, especialmente em comunidades vulneráveis. Um dado que chama a atenção é que, entre as 100 vítimas, 25% não possuíam antecedentes criminais.
Para o pesquisador Leonardo Ostronoff, do Núcleo de Estudos da Violência da USP, a solução passa por uma mudança na formação das polícias. "É preciso outra formação, em que o policial entenda que ele não está em uma guerra, mas que ele está ali para garantir o direito à segurança da população, uma visão cidadã e voltada para os direitos humanos", defende.
Já a Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina atribui o crescimento a dois fatores principais. O secretário Flávio Graff citou a "opção do confronto que vem do próprio criminoso" e o volume de operações. "Fizemos mais de 485 mil ao longo do ano, além da própria Polícia Militar aumentar em 82% as suas ações", afirmou.
Rostos por trás dos números: histórias que marcaram o ano
As estatísticas representam histórias de vida interrompidas. Em janeiro de 2025, Ernesto Schimidt Neto, conhecido como Betinho ou 'Anão da Solidão', foi morto em Florianópolis após uma discussão entre vizinhos. A Polícia Militar relatou que ele estava com uma faca e teria atacado os agentes. A família, porém, nega a versão. Segundo a filha, Eduarda Schmitz, a polícia arrombou a porta e, em menos de um minuto, efetuou os disparos.
Outro caso que comoveu o estado foi a morte de Dickson Inacio da Silva, um adolescente de 13 anos, durante uma ação em Balneário Rincão, no Sul catarinense, em abril. A PM informou que o adolescente teria apontado uma arma, levando o policial a atirar. A mãe, Sinara Inácio da Silva, afirma que o filho estava com as mãos para cima e pedia para não atirarem.
O secretário Flávio Graff destacou que, em todos os casos, foi aberto inquérito policial para apurar a conduta dos agentes envolvidos.
Perfil das vítimas e distribuição geográfica
Os dados obtidos via Lei de Acesso à Informação traçam um perfil das vítimas de 2025. A mais jovem tinha 13 anos e a mais velha, 61. Menores de 18 anos representaram 9% do total.
Em termos geográficos, a Grande Florianópolis concentrou o maior número de casos, com 37 ocorrências na capital e outras 7 nos municípios de Palhoça e São José.
O histórico recente mostra que, antes de 2025, o número de vítimas só havia ultrapassado a marca de 90 em dois anos: 2014 e 2018. A escalada se tornou mais evidente a partir de 2022:
- 2022: 44 mortes
- 2023: 80 mortes
- 2024: 79 mortes
- 2025: 100 mortes
Para o secretário de Segurança, a prática observada nos casos é similar. "Em todos se evidencia a mesma prática, de que há uma reação à ação da polícia e, por vontade do próprio criminoso, ele acaba oferecendo esse risco", pontuou Graff. Enquanto isso, especialistas e familiares das vítimas seguem cobrando mais transparência e mudanças estruturais para frear a letalidade.