Vítima de violência doméstica em Sorocaba relata agressões e busca por auto perdão
Vítima de violência doméstica fala sobre agressões e auto perdão

Vítima de violência doméstica em Sorocaba relata décadas de agressões e luta pelo auto perdão

Neste sábado (8), Dia Internacional da Mulher, muitas recebem flores e mensagens de carinho. No entanto, os 27 feminicídios registrados apenas em janeiro no estado de São Paulo revelam uma realidade sombria: além de gestos simbólicos, as mulheres enfrentam diariamente o risco da violência doméstica e outras formas de agressão. Em Sorocaba (SP), uma moradora de 49 anos, que preferiu manter o anonimato, carrega marcas profundas que vão muito além das cicatrizes físicas. Ela precisou aprender a amar um filho nascido de abuso e conviver com memórias dolorosas de anos de violência.

Uma infância marcada pela pobreza e agressões familiares

"Vim de uma família muito carente e pobre, sem acesso a informações. Meu pai era extremamente rigoroso, quase um carrasco. Até meu irmão me agredia constantemente. Por isso, eu desejava sair de casa cedo em busca de felicidade", relata a mulher. Aos 15 anos, seu sonho de escapar tornou-se um pesadelo quando iniciou uma série de relacionamentos abusivos.

Três relacionamentos traumáticos e ciclos de violência

O primeiro companheiro a agredia frequentemente, chegando a esfaqueá-la na perna. "Vivi um ano com ele e sofri intensamente. Não nos casamos; fui morar na casa da mãe dele, enfrentando extrema escassez. Ele me abandonou grávida, após meses de violência doméstica", conta. Após o abandono, ela retornou à casa paterna e foi forçada pelo pai a se casar com outro homem. Nesse segundo relacionamento, engravidou após ser violentada sexualmente.

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"Eu queria ficar solteira e cuidar do meu filho, mas fui coagida a me casar logo após o nascimento dele. Sofri muito, pois ele era irresponsável e não trabalhava, e morávamos na casa da minha sogra por falta de condições", desabafa. Apesar de não sofrer violência física nessa fase, o abuso emocional deixou marcas quase irreparáveis. Ela confessa que demorou a sentir amor pelo segundo filho: "Quando olhava para ele, via o rosto do agressor. Não conseguia sentir amor. Passei anos maltratando meu filho, mesmo sabendo que ele não tinha culpa. Me arrependo profundamente".

Tentativa de feminicídio e perda de um filho

No terceiro relacionamento, ela enfrentou agressões constantes e uma tentativa de feminicídio durante quatro anos. "Ele era possessivo e ciumento. Durante uma crise, chegou a pisar na minha barriga quando eu estava grávida do nosso terceiro filho. Não me deixava sair de casa para trabalhar e me vigiava o tempo todo; vivi em cárcere privado", relata. O terceiro filho nasceu doente e, quando ela pedia ajuda a vizinhos, o marido ameaçava matá-la e se matar.

"Teve um dia em que eu dormia com meus filhos e ele chegou jogando álcool em mim. Senti o cheiro forte e acordei. Quando ele ia acender o fósforo, me joguei sobre ele e lutei. Ele iria me queimar viva, e meus filhos também", diz. Devido a complicações, o terceiro filho não resistiu e morreu, agravando seu estado psicológico. "Mesmo com toda essa pressão, ele assumiu cuidar dos meus filhos, e a casa tinha comida, algo que nunca tive antes. Por isso, demorei para sair desse ciclo. Enfrentei depressão e me sentia inútil e burra".

Problemas de saúde desencadeados pela violência

Durante o estresse constante, a mulher desenvolveu fibromialgia, uma síndrome crônica caracterizada por dor muscular generalizada. "Até hoje, 20 anos depois, tomo muitos remédios para controlar a dor, mas tenho crises fortes. Essa doença não tem cura; provavelmente foi desencadeada após anos de violência", explica. A psicóloga Thais Mazzoti, também de Sorocaba, ressalta que a saúde deve ser entendida de forma multifatorial, envolvendo aspectos biológicos, psicológicos e sociais.

"Experiências de sofrimento intenso, traumas e estresse prolongado podem influenciar o funcionamento do organismo e contribuir para o surgimento ou agravamento de doenças como a fibromialgia", diz a especialista. Ela acrescenta que a dor física e psíquica são vividas de maneira subjetiva, e ter uma rede de apoio é crucial no processo de cuidado.

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O difícil caminho do auto perdão e reconstrução

Após o terceiro casamento, a vítima encontrou um homem que a trata com respeito e apoio há 20 anos. "Ele me ajuda a superar muitas coisas, me acompanha no psiquiatra e psicólogo, entende minhas crises. Sempre me coloca para cima, diz que sou inteligente e capaz", relata. Atualmente, ela faz tratamento para fibromialgia, ansiedade e depressão, além de acompanhamento psicológico.

"Com a psicóloga, consegui superar muitas coisas. Antes, tinha pavor de pessoas, especialmente homens. Não conseguia conversar, pois acreditava que todos se aproveitariam de mim", diz. A mulher enfatiza que não sente ódio pelos agressores, mas luta para perdoar a si mesma. "Às vezes sinto raiva de mim mesma. Tenho dificuldade, não consigo me perdoar. É algo que estou trabalhando, mas é muito difícil não entender como me deixei passar por essas coisas".

"Mesmo assim, posso dizer que superei muita coisa. Quero reforçar que nós, mulheres, não devemos aceitar nenhum tipo de agressão. Busquem independência, uma maneira de não depender dos companheiros. Façam diferente. Nós, mulheres, podemos tudo; somos fortes e inteligentes", finaliza, transmitindo uma mensagem de esperança e resiliência.