Vítima de feminicídio se forma em Administração enquanto agressor permanece foragido no Paraná
Vítima de feminicídio se forma enquanto agressor está foragido

Vítima de tentativa de feminicídio conquista diploma universitário enquanto agressor segue foragido no norte do Paraná

Sayonara Doraci da Silva, sobrevivente de uma tentativa de feminicídio ocorrida em fevereiro deste ano em Apucarana, no norte do Paraná, alcançou uma conquista acadêmica significativa durante um período de extrema adversidade. Mais de um mês após o crime violento, seu ex-companheiro, Ademar Augusto Crepe, de 58 anos, continua foragido da justiça, enquanto Sayonara concluiu seu curso de Administração na Universidade Estadual do Paraná (Unespar).

Cerimônia de formatura marcada pela ausência física e presença emocional

Por questões de segurança, necessitando manter-se escondida para proteger sua vida, Sayonara não pôde comparecer presencialmente à cerimônia de formatura que aconteceu no dia 27 de fevereiro. No entanto, sua presença foi sentida de maneira profunda através de uma carta emocionante que ela escreveu especialmente para a ocasião. O texto foi lido publicamente pela professora Carine Maria Senger momentos antes da entrega dos diplomas, criando um momento de intensa comoção entre todos os presentes.

Na carta, Sayonara expressou seu pesar pela ausência forçada e relatou que o ex-companheiro não foi localizado desde o dia do crime, ocorrido em 10 de fevereiro. Ela também compartilhou sua jornada acadêmica, destacando como persistiu nos estudos mesmo sob a constante ameaça de violência. "Persisti quando o mundo me dizia que bastava apenas sobreviver", escreveu ela, demonstrando resiliência extraordinária diante das circunstâncias traumáticas.

Professoras e instituição demonstram apoio à vítima

A professora Carine Maria Senger, que conheceu Sayonara durante o curso e foi coordenadora de projetos de pesquisa e extensão dos quais a aluna participou, recebeu o texto algumas horas antes da cerimônia. Em entrevista, ela descreveu o "sentimento contraditório" que experimentou: tristeza pela ausência da estudante combinada com honra por poder representá-la naquele momento importante.

"Inclusive cheguei a pensar que talvez não conseguisse fazer a leitura durante a cerimônia. Foi um momento de muita emoção", confessou a docente, que completou 18 anos de atuação na instituição e nunca havia vivenciado situação semelhante. A Unespar publicou uma nota oficial de apoio a Sayonara, reconhecendo que a mulher rompeu um ciclo de violência e buscou, "por meio da educação, a construção de um projeto de vida autônomo".

Detalhes do crime violento que mudou vidas

Sayonara possuía medida protetiva contra o ex-marido quando, no dia 10 de fevereiro, o carro que ela dirigia foi interceptado por uma caminhonete em Apucarana. O impacto violento lançou o veículo contra um poste de iluminação pública, fazendo com que a estrutura de concreto desabasse sobre o automóvel. Testemunhas e a própria vítima relataram à Polícia Militar do Paraná que Ademar Augusto Crepe estava dirigindo a caminhonete.

Segundo o boletim de ocorrência, o agressor ainda apontou uma arma de fogo na direção de Sayonara, ameaçando matá-la, e chegou a acionar o gatilho de um revólver, mas, por motivos alheios à sua vontade, não houve disparo. Imediatamente após o ataque, Ademar fugiu do local. Sayonara e seu filho, que estava no carro durante o incidente, receberam atendimento médico na Unidade de Pronto Atendimento de Apucarana.

A Polícia Civil solicitou prisão preventiva do suspeito, que foi concedida pela Justiça no dia 13 de fevereiro. Entretanto, até o momento da última atualização desta reportagem, ele permanece foragido, sem que as autoridades tenham conseguido localizá-lo para cumprimento da ordem judicial.

Contexto alarmante de feminicídios no estado paranaense

Os números do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) revelam um cenário preocupante no Paraná. Durante o ano de 2024, 109 mulheres foram assassinadas em crimes caracterizados como feminicídio, ocorridos no contexto de violência doméstica e ódio ao gênero feminino. Em 2025, os registros preliminares já apontam 87 casos deste crime hediondo no estado.

A Central de Atendimento à Mulher, disponível 24 horas por dia através do telefone 180, continua sendo um canal crucial para denúncias de violência contra mulheres. A persistência de casos como o de Sayonara destaca a importância de mecanismos de proteção e da conscientização social sobre este grave problema que afeta milhares de brasileiras.

Mensagem de resistência e esperança em meio à dor

Na carta lida durante a formatura, Sayonara transmitiu uma poderosa mensagem de superação: "Estudei entre medos e traumas. Escrevi trabalhos enquanto protegia meus filhos. Persisti quando o mundo me dizia que bastava apenas sobreviver". Ela pediu aos colegas que celebrassem também por ela, transformando sua ausência física em um símbolo de resistência.

"Que o meu lugar vazio hoje – representado pela professora Carine – sirva de lembrança de que a nossa profissão deve ajudar a construir um mundo onde nenhuma mulher precise faltar à própria vitória para garantir o direito de continuar viva", escreveu ela, encerrando com uma declaração poderosa: "Estudar não é rebeldia. Estudar é um ato de resistência".