Vitória registra primeiro feminicídio após mais de 650 dias sem ocorrências
A morte da comandante da Guarda Municipal de Vitória, Dayse Barbosa, de 37 anos, nesta segunda-feira (23), marca o primeiro caso de feminicídio registrado na capital após um período extraordinário de mais de 650 dias sem ocorrências desse tipo. Isso representa aproximadamente 1 ano e 9 meses sem assassinatos de mulheres motivados por questões de gênero na cidade.
Marca histórica interrompida por tragédia
O último registro de feminicídio em Vitória ocorreu em 8 de junho de 2024, quando um homem matou a própria filha com golpes de canivete. Desde então, a capital capixaba havia estabelecido um recorde significativo na redução desse tipo de violência.
Em entrevista ao Bom Dia ES, o prefeito Lorenzo Pazolini destacou que o período sem feminicídios foi resultado direto de políticas públicas de enfrentamento à violência doméstica e familiar, muitas delas coordenadas pela própria comandante Dayse Barbosa.
"Nós temos lutado muito contra a violência doméstica familiar. A Dayse simbolizava isso e agora, simboliza eternamente. Nós atingimos mais de 650 dias sem feminicídio exatamente pelas políticas públicas que ela coordenava. E, infelizmente, ela se torna vítima dessa violência", afirmou o prefeito com evidente emoção.
Vítima era símbolo da luta contra violência
Curiosamente, quando a capital atingiu a marca dos 600 dias sem registros de feminicídio, a própria Dayse Barbosa foi designada como porta-voz da prefeitura para falar sobre as iniciativas bem-sucedidas. Em entrevista concedida em 27 de janeiro de 2026, a comandante explicou detalhadamente o trabalho de conscientização desenvolvido pela Guarda Municipal.
"A Guarda Municipal faz esse trabalho nas praças, escolas, EJAs (Educação de Jovens e Adultos), para que a mulher possa se ver na situação, se identificar como uma vítima passando pela violência e pedir ajuda", declarou Dayse na ocasião, demonstrando seu compromisso com a causa.
Detalhes do crime chocam a cidade
Dayse Barbosa foi morta com cinco tiros na cabeça enquanto dormia, na casa onde morava com o pai e a filha de 8 anos, no bairro Caratoíra, em Vitória. O autor dos disparos foi seu namorado, o policial rodoviário federal Diego Oliveira de Souza, que tirou a própria vida imediatamente após cometer o crime.
Segundo o secretário de Segurança Urbana de Vitória, Amarílio Boni, há fortes indícios de que o crime foi premeditado. Na mochila do agressor, a polícia encontrou um arsenal preocupante: um canivete, uma faca, um vidro de álcool, carregadores de munição, alicate e um isqueiro.
"A circunstância é que ele foi com o intuito de cometer o feminicídio. Ele levou materiais para entrar na residência e subir na marquise. Tudo indica que ele a pegou deitada, dormindo, e efetuou os disparos sem possibilidade de reação", afirmou o secretário Boni em coletiva à imprensa.
Pai da vítima relata momentos de terror
O pai de Dayse, Carlos Roberto Teixeira, estava em casa durante o crime e relatou os momentos de pânico que viveu. "Não deu tempo de nada, ele entrou atirando. No primeiro tiro eu já acordei. Abri a porta devagarzinho, olhei, vi ele correndo, mas não deu pra sair, fiquei com medo de tomar um tiro também", contou o aposentado, visivelmente abalado.
De acordo com Carlos, o crime foi motivado pela tentativa da filha de encerrar um relacionamento marcado por violência. "Era uma relação conturbada, dois dias bons e quatro dias ruins. Eu já tinha presenciado brigas, já tirei ele de cima dela, uma vez flagrei ele tentando enforcar a Dayse", revelou o pai, acrescentando que, apesar das agressões, a filha nunca registrou denúncia formal.
Trajetória profissional e legado
Dayse Barbosa era a primeira mulher a comandar a Guarda Municipal da capital capixaba, deixando uma filha de oito anos e uma carreira dedicada à segurança pública. Já Diego Oliveira de Souza trabalhava na Polícia Rodoviária Federal em Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, tendo ingressado na corporação em 2020.
O prefeito Pazolini destacou o impacto da morte de Dayse entre servidores e integrantes da Guarda Municipal. "É um dia muito triste, que ficará marcado na memória de todos. Uma mulher guerreira, que liderou uma instituição forte, acaba sofrendo um ato de violência cruel e covarde", lamentou o gestor municipal.
Investigações em andamento
Uma equipe da Polícia Científica esteve na casa da comandante para realizar a perícia e conversou com familiares. O caso será investigado pela Delegacia Especializada de Homicídio e Proteção à Mulher (DHPM) de Vitória, que buscará esclarecer todos os detalhes do crime.
A Polícia Rodoviária Federal emitiu nota oficial manifestando pesar pelo falecimento da comandante e afirmando que os fatos estão sob apuração das autoridades competentes. A instituição se colocou à disposição para colaborar com as investigações e reiterou seu compromisso contra o feminicídio e a violência contra as mulheres.
O crime interrompe não apenas uma vida promissora, mas também uma marca histórica de Vitória no combate à violência de gênero, levantando questões profundas sobre a eficácia das políticas públicas mesmo em casos onde a vítima era justamente uma das principais articuladoras dessas mesmas políticas.



