Tenente-coronel preso por feminicídio: mensagens revelam agressões antes da morte da esposa PM
O tenente-coronel Geraldo Neto, preso pela Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo sob suspeita de matar sua esposa, a soldado PM Gisele Alves Santana, teria agredido fisicamente a vítima apenas 13 dias antes do crime fatal. As revelações emergem de mensagens extraídas do celular do oficial, que evidenciam um histórico de violência no relacionamento do casal.
Diálogos reveladores e agressão física
Segundo relatório de investigação acessado pela reportagem, no dia 6 de fevereiro de 2026, Gisele trocou mensagens com o marido nas quais afirmava: "Você sempre caçando um motivo para brigar. Mas você vai ver só. Você enfiou a mão na minha cara ontem. Gritou comigo hoje". A expressão "enfiou a mão" no rosto, conforme análise da Corregedoria, indica claramente uma possível agressão física ocorrida em 5 de fevereiro.
Os investigadores concluíram que "antes mesmo do evento fatal ora investigado, a Sd PM Gisele já estaria submetida a um ambiente relacional marcado por comportamentos agressivos e potencialmente violentos". A soldado faleceu no dia 18 de fevereiro, com um tiro na cabeça, no apartamento do casal localizado no Brás, região central da capital paulista.
Do suicídio ao feminicídio: investigação muda rumo
Inicialmente classificado como suicídio, o caso teve sua natureza completamente alterada após denúncias da família sobre o relacionamento conturbado do casal. A Polícia Civil aprofundou as investigações e, 30 dias depois do crime, laudos periciais concluíram que Gisele Alves não teria cometido suicídio, mas sim sido vítima de homicídio.
O tenente-coronel Geraldo Neto foi indiciado pelos crimes de feminicídio e fraude processual. Sua prisão preventiva foi decretada pela Justiça Militar de São Paulo nesta terça-feira (17), sendo efetivada na manhã de quarta-feira (18) em São José dos Campos, interior do estado.
Humilhações e comportamento machista
Outras mensagens obtidas pela Corregedoria revelam que Gisele era submetida a episódios constantes de humilhação, piadas e comportamento considerado "babaca" por parte do marido. Em um dos diálogos, ela escreve: "Não dá para entender. Você pediu para eu não ir embora. Eu fico e você continua igual, até pior, com seu tratamento. Falando coisas para me humilhar, para me provocar".
A soldado ainda reclamava: "Toda hora jogando piada, me chamando de burra, mandando arrumar um soldado. O que a função tem a ver com relacionamentos?". Em contrapartida, Geraldo Neto fazia declarações machistas como: "Lugar de mulher é em casa, cuidando do marido. E não na rua, caçando assunto. Rua é lugar de mulher solteira à procura de macho".
Laudos periciais decisivos
A decisão das autoridades em pedir a prisão do tenente-coronel ocorreu após a Polícia Técnico-Científica anexar ao inquérito 24 laudos relacionados à morte de Gisele. Dois deles foram particularmente determinantes:
- Trajetória da bala: apontou que o disparo foi dado de baixo para cima com o cano encostado na cabeça
- Necroscópico: concluiu que Gisele tinha marcas de dedos no pescoço e desmaiou antes de ser baleada
Outros exames complementares descartaram a possibilidade de suicídio:
- O toxicológico não encontrou resquícios de álcool ou drogas
- O residuográfico não detectou pólvora nas mãos de Gisele
- A perícia no local encontrou sangue da vítima em vários cômodos
Contexto de submissão e hierarquia doméstica
Para a Corregedoria da PM, que solicitou a prisão do tenente-coronel, os diálogos extraídos revelam uma "concepção de relacionamento baseada em submissão e hierarquia no âmbito doméstico". Os investigadores afirmam que "tais manifestações não se apresentam como meros desentendimentos ocasionais entre um casal, mas sim como indícios de violência psicológica reiterada".
O conteúdo das mensagens "evidencia elementos objetivos de violência psicológica e dinâmica relacional marcada por tensão e controle", circunstâncias que assumem relevância fundamental para compreensão do ambiente em que ocorreram os fatos investigados.
Prisão e próximos passos
O Tribunal de Justiça Militar informou que a prisão preventiva foi decretada "com base na garantia da ordem pública, na conveniência da instrução criminal e na necessidade de preservação da hierarquia e disciplina militares". O magistrado destacou o risco de interferência nas investigações e a gravidade concreta dos fatos apurados.
Após ser interrogado no 8º Distrito Policial do Brás e passar por exames de corpo de delito, Geraldo Neto será encaminhado ao Presídio Militar Romão Gomes, na Zona Norte de São Paulo. O Inquérito Policial Militar deve ser concluído nos próximos dias, enquanto a defesa do oficial alega incompetência da Justiça Militar para processar o caso.



