Tenente-coronel preso por feminicídio alega que dívidas da esposa impediam divórcio
O tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, preso preventivamente por ser suspeito de matar a esposa com um tiro na cabeça dentro do apartamento do casal no Brás, Centro de São Paulo, apresentou uma versão detalhada sobre os motivos que teriam impedido a separação do casal durante interrogatório à Polícia Civil.
Dependência financeira como principal obstáculo
Segundo o depoimento do oficial, a dependência financeira da soldado Gisele Alves Santana, agravada por diversos empréstimos, representava o principal entrave para a concretização do divórcio. Ele afirmou que, embora ambos manifestassem o desejo de se separar, Gisele teria dito em conversas ocorridas em novembro que não tinha condições financeiras de se manter sozinha e sustentar a filha do casal.
O tenente-coronel relatou que a renda da esposa estava comprometida por empréstimos consignados e bancários, feitos, segundo sua versão, para a construção de uma casa para os pais dela e para custear procedimentos estéticos, incluindo próteses de silicone, rinoplastia e bichectomia. De acordo com seu testemunho, após os descontos de dívidas e impostos, restavam a ela menos de R$ 1.000 por mês.
Tentativas de garantir autonomia financeira
Geraldo declarou à polícia que buscava alternativas para garantir a autonomia financeira da esposa. Ele afirmou ter conversado com coronel e tenente-coronel responsáveis pela assessoria da Polícia Militar no Tribunal de Justiça para tentar uma vaga para Gisele, descrevendo o cargo como "muito concorrido" e afirmando que a função previa um adicional de R$ 5 mil mensais.
Segundo o interrogatório, a vaga foi confirmada em janeiro, com o plano de que Gisele assumisse o posto em 2 de março, após o carnaval. Com o novo rendimento, a renda dela chegaria a cerca de R$ 6 mil, valor que, na avaliação do tenente-coronel, permitiria que ela alugasse um apartamento e vivesse de forma independente com a filha, viabilizando finalmente a separação definitiva.
O dia anterior ao crime
No relato apresentado à Polícia Civil, Geraldo detalhou os acontecimentos do dia 17 de fevereiro, véspera da morte de Gisele. Segundo sua versão, ambos frequentaram a academia em horários distintos pela manhã, e ao retornar, por volta das 11h, Gisele trancou-se na suíte com a filha pequena, onde permaneceu durante todo o dia.
Por volta das 18h30, o tenente-coronel sugeriu que tomassem um café, já que ele não havia almoçado. Gisele aceitou e os dois sentaram-se no sofá da sala, onde conversaram por aproximadamente duas horas. "Nós fizemos um resumo do nosso relacionamento desde 2023. E ali a gente conversou sobre vários fatores, prós e contras, vantagens e desvantagens de continuarmos juntos", afirmou ele no depoimento.
Geraldo detalhou que o momento foi carregado de emoção, com ambos relembrando viagens e chorando abraçados. Ele também apresentou os planos para a independência financeira dela, informando sobre a vaga conquistada na assessoria da Polícia Militar no Tribunal de Justiça.
Versão contraditória pelas provas
Entretanto, as investigações apresentam elementos que contradizem a versão do tenente-coronel. Segundo o Ministério Público, laudos periciais, reprodução simulada e as mensagens analisadas indicam que Geraldo segurou a cabeça de Gisele e atirou contra ela, descartando a hipótese de suicídio apresentada pela defesa.
Na sequência, ainda segundo a acusação, ele teria manipulado a cena do crime para simular que a soldado teria tirado a própria vida, o que fundamenta a imputação de fraude processual. Gravações das câmeras corporais de policiais militares mostram a disputa de poder hierárquico entre um cabo, que queria preservar o local do crime, e a autoridade do tenente-coronel, marido da vítima.
As imagens registram Geraldo insistindo em entrar no banheiro, tomar banho e circular pelo apartamento onde Gisele estava morta, exatamente o tipo de conduta que acendeu o alerta dos investigadores e enfraqueceu consideravelmente a versão de suicídio sustentada por ele.
Próximos passos processuais
Como o feminicídio é classificado como crime doloso contra a vida, a tendência é que o caso seja julgado pela Justiça comum, possivelmente pelo Tribunal do Júri. O Ministério Público pediu que, em caso de condenação, seja fixada indenização mínima de R$ 100 mil aos familiares da vítima.
A defesa de Geraldo Neto nega o crime, questiona a competência da Justiça Militar e afirma que o oficial colaborou com as investigações. Por meio de nota, o escritório de advocacia que representa o tenente-coronel informou que "seguem sendo divulgadas informações e interpretações que alcançam aspectos de sua vida privada, muitas vezes por meio de conteúdos descontextualizados".
Este é o primeiro caso desde 2015 de um oficial da Polícia Militar de São Paulo preso por feminicídio, segundo informações da Secretaria da Segurança Pública. Na sexta-feira (20), o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou o pedido de liberdade feito pela defesa do tenente-coronel, mantendo-o preso preventivamente.



