Laudo revela ferimentos no rosto e pescoço de PM morta em São Paulo; polícia pede prisão do marido
PM morta tinha ferimentos no rosto e pescoço; polícia pede prisão do marido

Laudo pericial revela ferimentos no rosto e pescoço de policial militar morta em São Paulo

A Polícia Civil de São Paulo formalizou nesta terça-feira (17) um pedido à Justiça para que seja decretada a prisão do tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, marido da soldada Gisele Alves Santana, encontrada morta com um tiro na cabeça em fevereiro. A solicitação ocorre após laudos técnicos apontarem lesões contundentes no rosto e pescoço da vítima, indicando violência prévia ao disparo fatal.

Cronologia do caso e investigação aprofundada

O caso, inicialmente registrado como suicídio, transformou-se em investigação de morte suspeita e, posteriormente, em possível feminicídio. A cronologia revela uma série de contradições e evidências que levaram os investigadores a questionar a versão apresentada pelo marido da vítima.

Antecedentes da morte: Dias antes do ocorrido, Gisele enviou mensagens a uma amiga expressando medo do comportamento ciumento do marido. "Qualquer hora me mata. Fica cego", teria afirmado a policial. Sua mãe relatou que cinco dias antes da morte, a filha telefonou dizendo não suportar mais a pressão do relacionamento e manifestando desejo de separação.

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Descoberta do corpo e primeiras inconsistências

Na manhã de 18 de fevereiro, Gisele foi encontrada sem vida no apartamento do casal no Brás, região central da capital paulista. Segundo o boletim de ocorrência inicial, o marido afirmou tê-la encontrado caída no chão com uma arma na mão e intenso sangramento. A vítima foi socorrida e levada ao Hospital das Clínicas, mas não resistiu.

Entretanto, depoimentos de socorristas que atenderam a ocorrência levantaram questionamentos cruciais. Um bombeiro com 15 anos de experiência relatou que, ao chegar ao local, encontrou o tenente-coronel completamente seco, apesar de ele afirmar estar tomando banho no momento do disparo. Não havia marcas de água no chão ou pegadas molhadas, conforme registrado em depoimento.

Laudos periciais e novas evidências

Após determinação judicial, o corpo da soldada foi exumado em 6 de março para novos exames. Peritos do Instituto Médico Legal identificaram lesões "contundentes" na região do pescoço e rosto, compatíveis com "pressão digital e escoriação por estigma ungueal" - indicando marcas de unhas. O laudo sugere que Gisele pode ter desmaiado antes de ser baleada e não apresentou sinais de defesa.

Outro ponto crucial foi a descoberta de que havia manchas de sangue da vítima espalhadas por vários cômodos do apartamento, não apenas no local onde foi encontrada. O laudo toxicológico descartou consumo de drogas ou álcool pela policial, assim como confirmou que ela não estava grávida.

Contradições na versão do suspeito

Vários elementos contradizem o relato do tenente-coronel. Uma vizinha afirmou ter ouvido um estampido forte às 7h28, aproximadamente meia hora antes da primeira ligação do marido para emergências, registrada às 7h57. Na chamada, ele declarou: "Minha esposa é policial feminina. Ela se matou com um tiro na cabeça".

Socorristas também estranharam o comportamento emocional do oficial, que não demonstrava desespero ou chorava, além de falar calmamente ao telefone enquanto questionava o atendimento. Observaram ainda que ele não apresentava marcas de sangue no corpo ou nas roupas, indicando que não tentou prestar primeiros socorros à esposa.

Histórico de relacionamento conturbado

Um Inquérito Policial Militar obtido pela investigação revela que o casal vivia uma relação marcada por ameaças, perseguição e episódios de instabilidade emocional. O documento registra que Gisele "vivia sob o temor manifestado" diante das atitudes do marido, segundo denúncias anônimas corroboradas por diversas testemunhas.

O advogado da família apresentou um áudio no qual Gisele planejava sair do apartamento e buscar uma casa próxima aos pais para facilitar sua rotina de trabalho e cuidados com a filha. O defensor também alegou que o tenente-coronel possui histórico de ameaças e perseguições contra mulheres, incluindo ex-companheiras e subordinadas na corporação.

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Novos elementos investigativos

Imagens de segurança mostraram três policiais mulheres entrando e saindo do apartamento cerca de 10 horas após a morte, supostamente para realizar limpeza no local. As agentes permaneceram aproximadamente 50 minutos no imóvel e serão ouvidas na investigação.

Outro fato que chamou atenção foi a presença do desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo, no apartamento após a ocorrência. O magistrado afirmou ter sido chamado "como amigo" do tenente-coronel e que prestará esclarecimentos à polícia se necessário.

Posicionamento das defesas

Em entrevista, o advogado Eugênio Malavasi, que defende o tenente-coronel Geraldo, afirmou que a defesa aguarda "serenamente o desenrolar da apuração" e mantém "confiança na palavra do coronel". Anteriormente, a defesa havia emitido nota afirmando que o oficial não era investigado, suspeito ou indiciado, e que colaborava com as autoridades desde o início.

O ex-marido de Gisele depôs em 13 de março afirmando que a soldada "nunca pensou em cometer suicídio", reforçando as suspeitas da família sobre a natureza da morte.

A investigação aguarda ainda resultados complementares do Instituto Médico Legal e do Instituto de Criminalística para esclarecer definitivamente a dinâmica do disparo ocorrido há quase um mês, enquanto a Polícia Civil sustenta o pedido de prisão preventiva do tenente-coronel baseado nas evidências já coletadas.