Novo secretário de Segurança do Piauí traça estratégias para combater feminicídio no estado
O recém-empossado secretário de Segurança Pública do Piauí (SSP-PI), Antônio Luiz Soares, apresentou em entrevista exclusiva à TV Clube um conjunto de medidas de enfrentamento que pretende implementar com urgência para reduzir os alarmantes índices de feminicídio registrados no território piauiense. Segundo dados oficiais do Núcleo de Estudos Avançados em Segurança Pública (DataSSP), entre os anos de 2022 e 2025, foram notificados 182 casos de feminicídio em todo o estado, um cenário que exige ações imediatas e eficazes.
Falta de denúncias é principal obstáculo no combate ao crime
Durante a conversa, Soares destacou que a falta de registros formais constitui um dos maiores desafios para prevenir essas mortes violentas. Ele revelou que, segundo análises da secretaria, quase 90% das vítimas de feminicídio no Piauí não haviam registrado boletim de ocorrência (BO) contra seus agressores antes do desfecho trágico. "No feminicídio, as mulheres não procuram ajuda oficialmente e isso me acendeu um alerta. Não adianta ter só o B.O Fácil, achando que a mulher vai fazer o registro. Temos que pensar em outra estratégia", afirmou o secretário, demonstrando preocupação com a subnotificação.
Plano incentiva denúncias por familiares e amigos das vítimas
A nova abordagem proposta por Antônio Luiz Soares visa envolver ativamente o entorno social das mulheres em situação de risco. O plano inclui desenvolver campanhas e mecanismos para que parentes, amigos, colegas de trabalho e pessoas próximas, ao perceberem sinais de violência ou comportamentos suspeitos, possam realizar o registro policial. "Temos que fazer com que o entorno dessa mulher, vendo a história ou algum movimento estranho, possam fazer esse registro", detalhou o gestor, enfatizando a necessidade de uma rede de proteção coletiva.
Dados atualizados mostram 38 feminicídios apenas em 2025
Informações mais recentes do Núcleo de Estatísticas da SSP-PI indicam que, até o início de dezembro de 2025, o Piauí já contabilizou 38 casos de feminicídio. A distribuição geográfica revela que 27 desses crimes ocorreram em cidades do interior do estado, enquanto oito foram registrados na capital Teresina. No ano anterior, 2024, o total foi de 40 feminicídios, demonstrando uma leve redução, mas ainda números preocupantes.
Perfil das vítimas segue tendência nacional com recorte racial e etário
A delegada Eugênia Villa, diretora de Avaliação de Risco da SSP e criadora da primeira delegacia de feminicídios do Brasil, explicou ao g1 que os detalhes dos casos piauienses acompanham a tendência observada em nível nacional. Segundo ela, mulheres negras na faixa etária entre 30 e 40 anos continuam sendo as maiores vítimas no estado. "Apesar de uma redução significante, as mulheres negras ainda são as maiores vítimas de feminicídio. Analisamos e as idades entre diferenciam pouco, com a faixa entre 30 a 40 anos", detalhou a especialista, acrescentando que muitas dessas mulheres já consolidaram vida sentimental, possuem filhos e enfrentam ciclos de violência que evoluem gradualmente.
Feminicídio: definição, penas e estágios precedentes de violência
O feminicídio é legalmente definido como o assassinato de uma mulher motivado por violência doméstica ou discriminação de gênero. Em outubro de 2024, a legislação brasileira aumentou a pena para esse crime, estabelecendo reclusão de 12 a 30 anos, com acréscimo de um terço se a vítima estivesse grávida ou o crime ocorresse na presença de filhos ou pais. Esse desfecho fatal costuma ser precedido por uma escalada de violências, que podem incluir:
- Xingamentos, ciúmes excessivos e piadas ofensivas
- Ameaças, controle comportamental e assédio sexual
- Chantagens, mentiras e humilhações públicas
- Agressões físicas como beliscões, arranhões e empurrões
- Estágios graves com confinamento, lesões corporais e ameaças com armas
Tecnologia será aliada nas novas medidas de enfrentamento
O secretário Antônio Luiz Soares adiantou que a Secretaria de Segurança Pública do Piauí pretende utilizar ferramentas tecnológicas para desenvolver e implementar as novas estratégias de combate ao feminicídio. Embora não tenha detalhado quais sistemas ou plataformas serão empregados, ele reforçou que a inovação será crucial para ampliar a eficácia das ações, facilitar denúncias e monitorar casos de risco. A integração entre tecnologia e envolvimento comunitário forma o eixo central do plano anunciado, que busca romper o silêncio que frequentemente cerca esses crimes.



