Jovem alega legítima defesa após esfaquear namorado em Maceió após meses de violência
A jovem Millena Beatriz Freire da Silva, de 22 anos, detida após esfaquear o namorado em Maceió, revelou que o relacionamento de aproximadamente sete meses era marcado por um ciclo constante de agressões físicas, violência psicológica e perseguição. Segundo seu relato, os golpes desferidos contra Ivison Felipe Balbino da Silva, também de 22 anos, ocorreram em um momento de defesa pessoal, após mais um episódio de brutalidade. O caso está sendo minuciosamente investigado pela Polícia Civil de Alagoas, que busca esclarecer todos os detalhes desta ocorrência complexa.
Relato detalhado de violência e perseguição
Em áudios obtidos pela reportagem, Millena descreve um relacionamento extremamente conturbado, onde chegou a encerrar a convivência devido às agressões sofridas, mas afirma ter sido ameaçada e perseguida até retomar a vida a dois. O casal residia juntos, o que intensificava a situação de vulnerabilidade. "Ele já me deu paulada nas costas para não ficar marca, a mãe dele já presenciou. Eu consegui me separar dele, mas ele não me deixava em paz. Liguei para a mãe dele, para falar que ele estava me perseguindo e acabou que a gente voltou. Acabou dessa forma, da pior forma possível", lamentou a jovem em seu depoimento emocionado.
Millena detalhou ainda que, em diversas ocasiões, era impedida de sair de casa pelo companheiro, que trancava portas e janelas. "Houve uma ocasião em que eu queria ir embora e ele não deixava. Trancava portas e janelas e dizia que, se eu fosse, me mataria", relatou, destacando o clima de terror que dominava seu cotidiano. Ela mencionou também episódios de agressões mútuas, incluindo uma situação onde ficou acamada por três dias devido à violência sofrida.
O dia do incidente: uma sequência de eventos violentos
No dia da ocorrência, segundo Millena, o namorado já havia saído de casa com intenção de brigar com um vizinho, sendo agredido por dois homens, fato que o deixou ainda mais exaltado. Após ingerir bebida alcoólica, ele tentou retornar ao local da confusão, momento em que a situação escalou. "No meio do caminho, ele estava querendo roubar as coisas na rua, estava bêbado e, pelo fato de eu não tentar impedi-lo, ele se revoltou. Ele me derrubou no chão, deu muito em mim. Quando chegou na outra esquina, ele me derrubou de novo, mas viu que tinha um pessoal olhando e me disse que, na próxima esquina, quando não tivesse ninguém olhando, ele iria me 'arregaçar'", contou a jovem.
Com medo, Millena retornou para casa, mas as agressões continuaram dentro do lar. Ao ver o companheiro pegar um tijolo, ela utilizou uma faca em ato de desespero. "Eu não tinha noção do que estava acontecendo. Enquanto eu usava a faca, ele continuava me agredindo. Achei que estava atingindo-o de raspão. Quando ele caiu, pedi ajuda e liguei para o 190. Mesmo ferido, ele ainda pegou um tijolo e correu atrás de mim", afirmou, descrevendo os momentos de pânico que culminaram no esfaqueamento.
Consequências jurídicas e pedido de medida protetiva
Ivison Felipe foi socorrido em estado grave, com ferimentos no abdômen, clavícula, olho esquerdo e região dorsal, sendo encaminhado ao Hospital Geral do Estado (HGE), onde foi entubado. Millena foi liberada pela autoridade policial diante da hipótese de legítima defesa e responderá em liberdade por tentativa de homicídio, enquanto o caso segue em investigação.
Nesta quinta-feira (26), a defesa de Millena informou que solicitou uma medida protetiva de urgência contra Ivison Felipe, com base na Lei Maria da Penha. De acordo com a advogada Amanda Montenegro, o pedido foi feito após a cliente relatar novas ameaças, inclusive por parte de familiares do namorado. A solicitação inclui o afastamento mínimo de 300 metros e a proibição de qualquer contato com a jovem e seus familiares, visando garantir sua segurança física e emocional.
Millena Beatriz havia publicado um vídeo nas redes sociais em que aparece ensanguentada, confessando o crime e afirmando que sofria violência doméstica, agindo em legítima defesa. Até a última atualização, o g1 não havia conseguido contato com a defesa de Ivison Felipe para obter sua versão dos fatos, nem com a Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) para informações sobre o estado de saúde da vítima.



