Feminicídio de comandante revela desafios no combate à violência de gênero
A morte da comandante da Guarda Municipal de Vitória, Dayse Barbosa Mattos, assassinada pelo namorado, o policial rodoviário federal Diego Oliveira de Souza, chama a atenção para a realidade de que nenhuma mulher está imune à violência de gênero, independentemente de sua posição social ou profissional. O caso, ocorrido na madrugada de segunda-feira (23), no bairro Santo Antônio, em Vitória, expõe um padrão recorrente nos feminicídios: o controle exercido pelo agressor, que não aceita o fim do relacionamento.
Medo e vergonha como barreiras para denúncias
A delegada Raffaella Almeida Aguiar, titular da Delegacia de Homicídios e Proteção à Mulher (DHPM), aponta que o medo e a vergonha são obstáculos significativos para que mulheres busquem ajuda, mesmo aquelas que atuam no enfrentamento à violência. "A gente precisa reconhecer o quanto é desafiador para uma mulher que trabalha no enfrentamento da violência contra a mulher ter a atitude de buscar ajuda. Por muitas vezes, essas mulheres se sentem envergonhadas, com medo da repercussão em suas carreiras", afirmou a gerente de Proteção à Mulher da Sesp, delegada Michele Meira.
No caso de Dayse, não havia boletim de ocorrência anterior, o que evidencia a dificuldade em formalizar denúncias. A secretária estadual das Mulheres, Jacqueline Moraes, destacou a falsa sensação de proteção associada a posições de poder, ressaltando que a vítima, apesar de estar no comando e ter uma arma, foi pega de surpresa enquanto dormia.
Padrões de controle e violência em relacionamentos abusivos
As investigações indicam que o policial rodoviário era possessivo e controlador, com relatos de ciúme excessivo e tentativas de afastar Dayse de amigos e familiares. O pai da vítima, Carlos Roberto Teixeira, contou que já havia flagrado o agressor tentando enforcá-la, evidenciando sinais de violência que antecederam o crime fatal.
De acordo com a delegada Raffaella, a violência de gênero está ligada a um sentimento de posse, onde o agressor vê a mulher como um objeto de dominação. "É sobre a mulher não querer mais aquele relacionamento e sobre ele falar: 'Você é minha, e agora você vai pagar até mesmo com a sua vida'", declarou. Ela enfatiza que a violência começa com comportamentos de controle, como decidir roupas ou amizades, e pode escalar gradualmente para agressões físicas.
Estatísticas e impacto social
No Espírito Santo, 35 feminicídios foram registrados em 2025, segundo o Observatório de Segurança Pública da Sesp. Em 2026, já são cinco vítimas, incluindo o caso de Dayse, o primeiro em Vitória após mais de 650 dias sem registros desse tipo de crime na capital. A comandante da Guarda Municipal de Vila Velha, Landa Marques, expressou desânimo com a situação, destacando a necessidade de ações concretas além do engajamento político.
Dayse Barbosa, de 37 anos, era pedagoga e deixou uma filha de oito anos. Ela foi a primeira mulher a ocupar o cargo de comandante da Guarda Municipal de Vitória, tendo sido nomeada em janeiro de 2023. Sua trajetória profissional, marcada por dedicação à segurança pública, contrasta tragicamente com a violência que a vitimou.
Sinais de alerta e canais de denúncia
Especialistas listam comportamentos que podem indicar relacionamentos abusivos, como:
- Controle disfarçado de cuidado, com tentativas de decidir roupas, rotina ou amizades
- Ciúme excessivo e comportamento possessivo
- Tentativas de afastar a mulher de amigos e familiares
- Necessidade de domínio e tratamento da parceira como propriedade
- Dificuldade em aceitar o fim do relacionamento
- Alternância entre afeto e atitudes de controle ou intimidação
- Minimização de comportamentos abusivos, com justificativas como “é cuidado”
- Escalada gradual da violência, que pode evoluir para agressões físicas
Para denúncias, estão disponíveis canais gratuitos como o Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher) e o Disque 190 (para emergências). A delegada Raffaella reforça que buscar ajuda é um ato de coragem, não de fraqueza, e é crucial para prevenir tragédias como a de Dayse.



