Tragédia no condomínio Le Parc: Caso expõe falhas na proteção a mulheres
Um crime brutal chocou o Recife no último domingo (22), quando a universitária Isabel Cristina Oliveira dos Santos, de apenas 22 anos, foi assassinada pelo ex-companheiro, o empresário e influenciador Silvio Souza Silva, de 48 anos, que em seguida cometeu suicídio. O feminicídio ocorreu dentro do apartamento da vítima, localizado no condomínio Le Parc, no bairro da Imbiribeira, Zona Sul da capital pernambucana.
Medida protetiva ignorada e retorno fatal à delegacia
O mais alarmante é que Isabel havia procurado a Delegacia da Mulher em 27 de fevereiro, denunciando Silvio por perseguição, ameaças e violência doméstica. Ela solicitou uma medida protetiva de urgência contra o agressor, conhecido artisticamente como Dom Silver, e foi orientada a retornar à delegacia nesta terça-feira (24). Tragicamente, o assassinato aconteceu apenas dois dias antes desse retorno marcado.
O g1 teve acesso ao boletim de ocorrência que detalha o histórico de violência. Isabel decidira terminar o relacionamento de seis anos, mas Silvio não aceitou a separação. Ele já havia sido preso em 25 de janeiro por agredi-la e, no dia seguinte, embarcou no mesmo voo quando ela viajou para São Paulo, numa clara demonstração de perseguição.
Campanha de assédio e invasão de privacidade
O documento policial revela uma série de ações perturbadoras do agressor:
- Ele procurou os pais de uma amiga de faculdade de Isabel, pedindo que intercedessem a seu favor;
- Como estava bloqueado em todas as redes sociais, fazia transferências PIX de pequenos valores para a ex-companheira, inserindo mensagens no campo de descrição;
- Em outubro de 2025, enviou ameaças de morte pelo WhatsApp e cometeu agressões verbais;
- Em novembro do mesmo ano, arrombou a porta dos fundos do apartamento dela, alegando ter direito porque pagava o aluguel.
Isabel relatou ainda que, durante o relacionamento, sofreu agressões físicas e ameaças de morte. Ela morava no apartamento com a filha de 3 anos, fruto do relacionamento com Silvio. Ao registrar a ocorrência em fevereiro, a jovem mostrou interesse em representar criminalmente contra o agressor, mas optou por permanecer em sua residência, recusando abrigo temporário oferecido pelo governo estadual.
Os momentos finais e a cena do crime
Testemunhas relataram que, no dia do crime, houve uma discussão entre o ex-casal. Silvio deixou o condomínio e retornou depois, quando ficou sozinho com Isabel no apartamento. Por volta das 22h, disparos de um revólver calibre 38 ecoaram no local.
As primeiras pessoas a entrar no apartamento após o crime foram a irmã de Isabel, a namorada dela e a filha do ex-casal. Ambos apresentavam ferimentos na cabeça provocados pelos tiros. Isabel morreu no local, enquanto Silvio cometeu suicídio. A arma e munições foram apreendidas pela polícia.
Condomínio alega desconhecimento sobre medida protetiva
Em nota, a administração do condomínio Le Parc prestou solidariedade à família da vítima, mas afirmou que:
- Não teve "qualquer conhecimento acerca da existência de medida protetiva, ação judicial ou procedimento que restringisse o acesso dos envolvidos";
- O controle de acesso é realizado "por meio de procedimento rigoroso, com cadastro prévio de moradores e pessoas autorizadas";
- Não recebeu "qualquer solicitação de bloqueio de acesso, seja por parte dos envolvidos, de terceiros interessados ou de autoridade".
O condomínio informou ainda que Silvio e Isabel tinham contrato de locação vigente e ambos estavam com cadastros atualizados e regulares para acessar o residencial.
Serviços de atendimento e como denunciar
No Recife, mulheres vítimas de violência podem buscar ajuda nos seguintes locais:
- Centro de Referência Clarice Lispector: Rua Doutor Silva Ferreira, 122, Santo Amaro (atendimento 24 horas);
- Serviço Especializado e Regionalizado (SER) Clarice Lispector: Avenida Recife, 700, Areias (atendimento de segunda a domingo, das 7h às 19h);
- Salas da Mulher em cinco unidades do Compaz.
Existe também um Plantão WhatsApp, com funcionamento 24 horas, no número (81) 99488-6138. Em Pernambuco, as denúncias podem ser feitas:
- Pelo telefone 180, da Central de Atendimento à Mulher (24 horas);
- Pela Polícia Militar, através do 190, quando o crime estiver acontecendo;
- Pelo Disque-Denúncia da Polícia Civil no Grande Recife: (81) 3421-9595;
- Pelo Ministério Público de Pernambuco: 0800.281.9455 (segunda a sexta, das 12h às 18h);
- Pela Ouvidoria da Mulher de Pernambuco: 0800.281.8187.
O g1 questionou a Polícia Civil sobre o motivo do retorno de Isabel à delegacia ter sido marcado para um mês após o pedido da medida protetiva, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem. O caso levanta questões urgentes sobre a efetividade das medidas de proteção a mulheres em situação de violência doméstica.



