Feminicídio: 32 mulheres assassinadas em 2025 na região de Campinas, revela delegada
Feminicídio: 32 mulheres mortas em 2025 na região de Campinas

Feminicídio: 32 mulheres assassinadas em 2025 na região de Campinas, revela delegada

A delegada Nathalia Alves Cabral, responsável pela Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Sumaré, no interior de São Paulo, convive diariamente com histórias de violência doméstica que seguem um padrão alarmante. Segundo ela, esses casos se repetem há anos, envolvendo mulheres jovens, mortas dentro do próprio lar, quase sempre por parceiros íntimos e, frequentemente, na presença dos filhos.

Lembranças que motivam a luta

A delegada guarda fotos de algumas vítimas em sua carteira, como um lembrete pessoal do motivo pelo qual escolheu trabalhar na área. “Elas tinham nome, tinham história. E muitas deixaram filhos. Eu lembro da carinha deles”, afirmou Cabral, emocionada. Ela descreve o impacto profundo desses casos e enfatiza a necessidade urgente de que as vítimas busquem ajuda antes que a agressão se intensifique.

“As histórias parecem as mesmas. A maioria tem entre 20 e 40 anos e sofre violência dentro de casa. Quando há testemunhas, são as crianças”, disse a delegada, destacando a vulnerabilidade dessas mulheres em seus próprios lares.

Cena de crime: vida interrompida

Cabral relata que chegar ao local de um feminicídio é sempre um momento difícil e marcante. Ela observa detalhes simples, como livros, roupas e objetos pessoais, que revelam a vida brutalmente interrompida da vítima. “Eu nunca esqueço. Vejo as coisas dela e penso no que sentiu. Penso se chamou pela mãe, pela irmã. É impossível não se colocar no lugar”, compartilhou.

Entre os casos que a marcaram, um se destaca: o de uma jovem de 25 anos, mãe de cinco filhos, assassinada meses depois de ter denunciado o agressor. “Ela estava machucada, com um bebê no colo. Eu carreguei o bebê pela delegacia. Meses depois, eu peguei o corpo dela. Ela foi morta na frente de duas crianças. É um caso que eu nunca vou esquecer, porque eu conversei com ela, eu falei para ela, 'não volta, não perdoa'. Infelizmente ela voltou e não teve tempo”, contou a delegada, ilustrando a tragédia que muitas enfrentam.

Ciclo de violência e a ilusão de mudança

Segundo Cabral, grande parte das vítimas acredita na mudança do agressor, uma crença que aparece repetidamente nos atendimentos. “Elas dizem que acreditaram porque ele parou de beber, porque engravidaram, porque ele começou a frequentar uma igreja. Mas o ciclo da violência volta. Às vezes demora, mas volta”, explicou.

A delegada reforça que as medidas protetivas têm eficácia comprovada e podem salvar vidas, acrescentando que as últimas vítimas em casos acompanhados por ela não possuíam essa proteção. “Poderia ter feito diferença”, afirmou, sublinhando a importância de ações preventivas.

Rede de apoio: além da polícia

Para Cabral, combater a violência doméstica exige uma rede mais ampla do que apenas a atuação policial. Ela cita a necessidade crítica de abrigos, auxílio financeiro temporário e capacitação profissional para as vítimas. “Muitas mulheres dependem financeiramente do agressor. Às vezes, a casa é dele. Não adianta prender o agressor e deixar a mulher sem ter onde morar ou como sustentar os filhos. É preciso apoio para que elas consigam autonomia”, destacou.

Além disso, a delegada ressaltou que os homens precisam participar ativamente do enfrentamento à violência doméstica. “Os que têm consciência podem conversar com amigos, familiares. Dizer: respeita sua esposa, sua filha, sua namorada. Violência doméstica é crime. É importante que essa mensagem circule entre eles”, concluiu, chamando a sociedade para uma responsabilidade coletiva.

Os dados de 2025 na região de Campinas servem como um alerta sombrio, reforçando a urgência de políticas públicas e ações comunitárias para proteger as mulheres e romper o ciclo de violência que continua a ceifar vidas.