Creche municipal de Socorro demite servidoras após investigação por maus-tratos a crianças
A Prefeitura da Estância de Socorro, no interior de São Paulo, concluiu o procedimento administrativo disciplinar e determinou o desligamento de duas servidoras da creche municipal Jandira Ferreira de Andrade. As profissionais eram investigadas por suspeita de maus-tratos contra crianças com idade entre 2 e 3 anos, conforme denúncias que vieram à tona no início de fevereiro.
Áudios gravados revelam conduta inapropriada
O caso ganhou repercussão após a divulgação de áudios gravados secretamente que capturaram xingamentos e ofensas direcionados às crianças. As gravações, feitas com um gravador escondido em uma mochila, expuseram situações de violência verbal e supostas agressões no ambiente que deveria ser de proteção e cuidado.
Em nota oficial, a administração municipal informou que publicou as portarias para desligamento das servidoras na quarta-feira (25), "após a conclusão das etapas administrativas cabíveis, em conformidade com a legislação vigente, observando o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa". A Prefeitura reafirmou seu compromisso com a legalidade, transparência e responsabilidade na condução dos atos da Administração Pública.
Investigação policial em andamento
Paralelamente ao processo administrativo, o caso também é investigado pela Polícia Civil. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública (SSP), onze mães das crianças atendidas na creche já foram ouvidas e apresentaram relatos detalhados dos supostos maus-tratos, incluindo fotografias que mostram marcas de agressões nos corpos dos pequenos.
As testemunhas descreveram situações preocupantes que teriam ocorrido dentro da instituição, levantando questões sobre a supervisão e os protocolos de segurança implementados. O g1 Campinas tentou localizar as servidoras para comentar o desligamento, mas não obteve sucesso em contatá-las.
Impactos profundos na primeira infância
Especialistas ouvidas pela reportagem destacaram que os efeitos da violência contra crianças podem ser devastadores, mesmo quando não deixam marcas visíveis. A psicóloga Pollyanna Xavier explicou que, na primeira infância, as crianças tendem a reproduzir comportamentos dos adultos que servem como modelos, especialmente daqueles com quem convivem mais intensamente, como familiares e educadores.
"Na primeira infância, principalmente, a criança tem o adulto como modelo, ela está entendendo como o mundo funciona, como as relações funcionam, então ela tende a reproduzir esses comportamentos, principalmente desse núcleo que ela frequenta mais", afirmou a especialista.
Características do desenvolvimento infantil
A pedagoga Telma Vinha complementou que as crianças pequenas possuem limitações naturais em seu desenvolvimento que as tornam particularmente vulneráveis. Elas não têm capacidade de autorregulação emocional completa e, quando enfrentam situações de estresse, podem manifestar reações como choro ou comportamentos agressivos, que muitas vezes são mal interpretados pelos cuidadores.
"Muitas vezes, os profissionais que atuam com elas veem isso como problema de personalidade, de caráter, algo irritante, e não como uma característica de desenvolvimento que precisa de intervenções intencionais pedagógicas para ajudá-las", defendeu Telma, ressaltando a importância de abordagens educacionais adequadas à fase de crescimento.
O caso na creche municipal de Socorro levanta questões importantes sobre a formação dos profissionais que atuam com a primeira infância e os mecanismos de fiscalização existentes em instituições de educação infantil. A comunidade local acompanha com atenção o desdobramento das investigações policiais e as medidas que serão adotadas para prevenir novos episódios.



