Carla Góes: cirurgiã que recupera faces de vítimas defende combate à violência doméstica nas escolas
A cirurgiã Carla Góes, conhecida por seu trabalho voluntário de recuperação de faces de mulheres agredidas, está na linha de frente de uma batalha urgente: levar o combate à violência doméstica para as salas de aula. Com quase uma década de experiência no Instituto Um Novo Olhar, ela observou uma mudança alarmante no perfil das vítimas e decidiu agir.
O tabu que precisa acabar
Para Carla Góes, o maior desafio em seu trabalho não está apenas nas complexas cirurgias, mas no silêncio da sociedade. A violência contra a mulher ainda é um assunto tabu, escondido debaixo do tapete, afirma a especialista. Ela enfatiza que se trata de uma questão de saúde pública, presente em todas as classes sociais, e que o Brasil ocupa a triste posição de quinto país com o maior número de casos no mundo, registrando altos índices de feminicídio.
É uma obrigação nos unirmos para brigar contra esse mal e conseguir acolher as vítimas e seus filhos, destaca a cirurgiã, ressaltando a necessidade de apoio coletivo.
Mudança no perfil das vítimas: adolescentes em risco
Desde o início de seu trabalho voluntário, Carla notou uma transformação significativa. Antes, atendia principalmente mulheres adultas, mães de família, com histórias de relacionamentos mais longos. Hoje, a realidade é outra: a faixa etária diminuiu drasticamente, com um número crescente de adolescentes procurando o serviço.
Essas jovens já vivem, cedo na vida, relações abusivas e violentas, muitas vezes sem perceber a gravidade da situação. Essa observação foi o gatilho para a criação de uma iniciativa inovadora.
Cartilha educativa: prevenção desde a infância
Preocupada com a normalização da violência, Carla Góes elaborou uma cartilha voltada para escolas, já aprovada para aplicação em colégios públicos. O objetivo é claro: ensinar crianças e adolescentes a identificar e romper o ciclo de abusos.
Crianças e adolescentes estão levando para a sala de aula o que frequentemente vivenciam em casa, normalizando esse tipo de conduta, explica a cirurgiã. A cartilha foca na identificação dos sinais de abusos, despertando a consciência desde a infância para prevenir que situações evoluam para agressões graves ou homicídios.
Conteúdo e impacto da cartilha
A cartilha aborda temas como empatia, respeito às mulheres e consentimento, ajudando os jovens a reconhecer situações de violência. Inúmeras mulheres vivem relacionamentos abusivos e não conseguem entender o que está acontecendo, relata Carla. Ela cita exemplos chocantes, como meninas que acham bonito o namorado jogar o celular no chão durante crises de ciúmes.
Com informação, essas jovens começam a identificar indícios de violência, que costumam escalar com o tempo. A iniciativa também acaba atingindo as famílias, promovendo um alerta social para retirar o tema do rol dos tabus de uma vez por todas.
A luta de Carla Góes é um chamado à ação: a educação nas escolas pode ser a chave para interromper a violência doméstica antes que ela deixe marcas ainda mais profundas.



