Neurocientista revela como violência de gênero causa alterações cerebrais profundas em mulheres
A neurocientista Diana Lemos explicou em entrevista exclusiva como a violência de gênero provoca mudanças neurológicas significativas no cérebro das mulheres vítimas de abuso. A especialista participou da série "Marcas", iniciativa da TV Globo durante a semana do 8 de março, Dia Internacional da Mulher, para promover conscientização sobre o tema.
Impacto neurológico da violência doméstica
"A experiência da violência, principalmente quando a gente fala da doméstica, é uma experiência socioafetiva que impacta muito os processos neurais", afirmou Diana Lemos durante entrevista no Bom Dia PE. Segundo a neurocientista, mulheres que sofreram abusos físicos ou psicológicos carregam marcas cerebrais identificáveis que afetam suas respostas emocionais e comportamentais.
O cérebro humano tem como função primordial garantir a sobrevivência, tanto do ponto de vista corporal quanto social. Quando as relações afetivas – que deveriam proporcionar segurança – se tornam fontes de hostilidade, o cérebro entra em conflito e ativa circuitos neurais intensos para lidar com a situação.
Alterações específicas no funcionamento cerebral
Estudos científicos comparativos revelam diferenças marcantes no cérebro de mulheres violentadas:
- Área de Broca comprometida: Região responsável pela fala e articulação de palavras funciona abaixo da média, explicando a dificuldade das vítimas em narrar suas experiências traumáticas
- Sistema límbico superativado: Áreas como a amígdala cerebral permanecem em alerta constante, não apenas durante as experiências violentas, mas também durante as memórias desses eventos
- Liberação contínua de cortisol: Hormônio do estresse circula constantemente no organismo, mantendo as vítimas em estado permanente de alerta
Mecanismos de defesa e ciclos de violência
O cérebro organiza respostas defensivas que incluem:
- Luta ou fuga: Preparação corporal constante para enfrentar ameaças
- Isolamento: Retraimento social como forma de proteção
- Justificação moral: Valores sociais internalizados que dificultam a ruptura com relacionamentos abusivos
"A gente aprende muito que o papel da mulher na sociedade é um papel de mais submissão", explicou Lemos, destacando como aprendizados sociais disfuncionais afetam o córtex orbitofrontal – região cerebral envolvida na tomada de decisões.
Sistema de recompensa e dependência emocional
Um aspecto particularmente complexo envolve o sistema de recompensa cerebral. Quando o agressor alterna violência com gestos de afeto ou arrependimento, o cérebro da vítima libera dopamina – neurotransmissor associado ao prazer e bem-estar.
"O cérebro entende que o evento ruim está conectado ao evento bom", esclareceu a neurocientista, criando um ciclo perverso onde a violência se mistura com experiências positivas, dificultando ainda mais a ruptura do relacionamento abusivo.
Acolhimento adequado para vítimas
Quando mulheres conseguem romper o ciclo de violência e buscar ajuda, o acolhimento deve ser realizado com extrema sensibilidade. "Não pede para ela narrar, porque ela não vai conseguir narrar, isso só vai estressar mais", orientou Diana Lemos.
A abordagem ideal envolve validação emocional e criação de experiências afetivas seguras, mostrando ao sistema emocional das vítimas que existem relações sociais que não seguem o padrão violento ao qual estavam acostumadas.
Serviços de atendimento no Recife
Mulheres vítimas de violência na capital pernambucana podem buscar apoio em:
- Centro de Referência Clarice Lispector: Rua Doutor Silva Ferreira, 122, Santo Amaro (atendimento 24 horas)
- Serviço Especializado e Regionalizado (SER) Clarice Lispector: Avenida Recife, 700, Areias (atendimento de segunda a domingo, das 7h às 19h)
- Salas da Mulher em cinco unidades do Compaz distribuídas por diferentes bairros da cidade
- Plantão WhatsApp 24 horas: (81) 99488-6138
Canais de denúncia em Pernambuco
Para reportar casos de violência contra mulheres:
- Central de Atendimento à Mulher: Disque 180 (funcionamento 24 horas)
- Polícia Militar: 190 (para crimes em andamento)
- Disque-Denúncia da Polícia Civil: (81) 3421-9595 (Grande Recife)
- Ministério Público de Pernambuco: 0800.281.9455 (segunda a sexta, 12h-18h)
- Ouvidoria da Mulher de Pernambuco: 0800.281.8187
A compreensão neurocientífica da violência de gênero oferece ferramentas valiosas para desenvolver políticas públicas mais eficazes e abordagens terapêuticas adequadas às necessidades específicas das mulheres vítimas de abuso.



