Mais de mil crianças com deficiência aguardam adoção no Brasil em meio a fila de 32 mil pretendentes
Mil crianças com deficiência aguardam adoção no Brasil

Mais de mil crianças com deficiência aguardam por famílias no Brasil

Diego*, de 15 anos, convive com outras 14 crianças e jovens em um abrigo de São Paulo. Seu cotidiano é marcado pela imprevisibilidade: as companhias podem mudar a qualquer momento, assim como os adultos responsáveis por seu cuidado. Diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA), o adolescente não fala, mas interage e dança com os demais acolhidos, todos neurotípicos.

"Diego foi inserido no Cadastro Nacional de Adoção, mas até agora não surgiu nenhum pretendente", relata Dirce*, coordenadora da instituição. "A gente oferece o que consegue: ele chegou aqui aos 5 anos, sem nenhum estímulo sensorial, se rastejando em vez de andar. Hoje, já faz a higiene pessoal sozinho. Mas ele precisa de uma atenção individual que só uma família conseguiria dar."

Descompasso entre disponibilidade e interesse

Em dezembro de 2025, havia 1.146 crianças e adolescentes de até 16 anos com alguma deficiência disponíveis para adoção no Brasil, segundo o Conselho Nacional de Justiça. Na fila de pretendentes ativos, mais de 32 mil pessoas aguardam.

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"A conta não fecha. O perfil escolhido pelos adotantes é muito restrito", explica Mônica Gonzaga Arnoni, juíza assessora da Corregedoria Geral da Justiça de São Paulo. "As crianças com deficiência frequentemente acabam ficando nas instituições de acolhimento até alcançarem a maioridade."

Na Casa Lar Dona Meca, no Rio de Janeiro, só são acolhidas crianças e jovens com deficiência. "A gente tem a entrada, mas não tem a saída", afirma Jéssica Souza, coordenadora da instituição. "Houve alguns casos de reintegração e de adoção, mas é um número muito pequeno." Em 2025, em todo o país, foram registradas apenas 173 adoções de pessoas com deficiência.

Impactos neurológicos da institucionalização

A permanência em abrigos, mesmo em condições adequadas, traz consequências graves para o desenvolvimento infantil, principalmente pela ausência de vínculos duradouros e atenção exclusiva.

"Os efeitos do cuidado institucional alteram a estrutura e o funcionamento do cérebro", alerta Charles Zeanah, neurocientista romeno e professor da Universidade de Tulane. "Todas essas áreas ficam em risco quando bebês são criados sob cuidados coletivos, em vez de individuais."

Em crianças com deficiência, os prejuízos tornam-se ainda mais evidentes. "Qualquer um que vá para o abrigo tem como cuidador uma pessoa 'estranha', que cuida de várias outras", explica Silvana Maria Blascovi de Assis, professora da Universidade Mackenzie. "Em casos de desenvolvimento atípico, a falta de estimulação precoce nos primeiros meses e anos de vida é ainda mais notável."

Resistência dos pretendentes

Dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento mostram que 67% dos pretendentes aceitam apenas crianças sem deficiência. A resistência é ainda maior quando há comprometimento intelectual: apenas 5% dos habilitados consideram essa possibilidade.

Na contramão das estatísticas, estão Fabrício Pellegrino e Bruno Bruhns, pais de Sérgio, diagnosticado com autismo e adotado aos 12 anos. "Não queríamos fazer escolha, porque não é assim que achamos que se tem um filho", afirmam. Para eles, a imprevisibilidade faz parte do processo parental.

Os principais fatores que afastam as famílias da adoção de crianças com deficiência incluem:

  • Sobrecarga emocional
  • Dificuldades financeiras para tratamentos
  • Falta de apoio do poder público
  • Desconhecimento sobre necessidades específicas
  • Medo de mudanças na rotina

Alternativas e caminhos possíveis

A Justiça estabelece uma ordem de prioridade para crianças em situação de vulnerabilidade:

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  1. Retorno à família de origem com apoio do Estado
  2. Busca pela extensão da família (tios, avós, padrinhos)
  3. Acolhimento familiar provisório
  4. Adoção, quando não há possibilidade de reintegração

Programas de acolhimento familiar permitem que voluntários recebam crianças por períodos limitados, oferecendo ambiente familiar enquanto a situação legal é resolvida. "A adoção é vista como preferível e como uma situação mais permanente", afirma Charles Zeanah.

Histórias que inspiram

Kelly e Júnior Oliveira adotaram Davi, que tem TEA, após inicialmente rejeitarem a possibilidade de acolher criança com deficiência. "Era uma criança acelerada! Gritava, corria!", lembra Kelly. "Mas eu vi que ele piscou para mim quando me viu."

Hoje, cinco anos depois, Davi vive com a família em uma rotina que inclui escola pública, terapias e muitas brincadeiras. "Nossa vida já era boa. Mas, sem o Davi, ela não seria completa", resume Júnior.

Especialistas reforçam que a adoção não deve ser vista como caridade. "Adoção é forma de ter filho", explica a defensora pública Renata Tybiriçá. "A criança é um sujeito de direitos, não um objeto de escolha descartável."