Defesa de cabeleireiro esfaqueado pede reclassificação para tentativa de homicídio homofóbico
Defesa de cabeleireiro esfaqueado pede reclassificação

A defesa do cabeleireiro Eduardo Ferrari, vítima de uma facada desferida por uma cliente insatisfeita com o corte da franja na última terça-feira (5), anunciou que acionará o Ministério Público para solicitar a reclassificação do crime como tentativa de homicídio e homofobia. O caso foi registrado no 91º Distrito Policial (Ceasa) sob as tipificações iniciais de lesão corporal, ameaça e autolesão.

Agressão violenta e repentina

Segundo a advogada Quecia Montino, que representa a vítima, Laís Gabriela Barbosa da Cunha, de 27 anos, atacou o cabeleireiro “de forma repentina, desproporcional e violenta pelas costas”, conduta que ela classifica como “grave tentativa de homicídio”. A defesa destaca que a própria agressora declarou, perante os policiais, que teria se dirigido ao local com a intenção de “matar esse viado desgraçado”. Na avaliação da advogada, essa declaração “pode evidenciar não apenas o dolo na prática criminosa, mas também possível motivação discriminatória de caráter homofóbico”.

Medidas legais contra homofobia

A advogada afirmou que “serão adotadas todas as medidas legais cabíveis para a devida responsabilização criminal da acusada, inclusive no que se refere à apuração de eventual prática de homofobia, nos termos da legislação vigente e do entendimento consolidado do Supremo Tribunal Federal acerca da equiparação da homofobia ao crime de racismo”. Ela explicou que pretende ir diretamente ao Ministério Público para apresentar queixa e “todos os elementos, provas e informações já reunidos, para que seja analisada a correta tipificação jurídica dos fatos”. “A defesa entende que a dinâmica da agressão, a violência empregada, o local atingido e demais circunstâncias do caso merecem uma análise mais aprofundada pelas autoridades competentes”, completou.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Posição da defesa da agressora

O g1 procurou Laís Barbosa para comentar o caso, mas ela afirmou que ainda está constituindo advogado e só pretende se pronunciar após a contratação de um profissional. A Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que a delegada do 91º DP já encaminhou o caso ao Juizado Especial Criminal (Jecrim) para análise e deliberação do Ministério Público e do Poder Judiciário. “A Polícia Civil, por meio do 91º Distrito Policial (Ceasa), informa que a tipificação inicial registrada em boletim de ocorrência é realizada com base nos elementos apresentados no momento da comunicação dos fatos e na legislação vigente”, afirmou a pasta em nota.

Ameaças anteriores e contexto

Prints de conversas fornecidos à Polícia Civil pela defesa do cabeleireiro mostram que Laís fez ameaças graves pelo WhatsApp, chamando o profissional de “viado desgraçado” e dizendo que a “vontade era de ir no salão e colocar fogo” em Eduardo. Em vídeo enviado ao g1, Ferrari afirmou estar abalado com o episódio e cobrou punição: “Isso não pode ficar impune”.

Segundo Eduardo, há cerca de um mês a cliente fez um procedimento de mechas e texturização no cabelo e saiu contente do salão. “Ela saiu super satisfeita, gravou fotos de antes e depois, postou nas redes sociais, agradeceu e divulgou o resultado do cabelo que ela tinha amado”, afirmou. Dias depois, ela passou a publicar críticas ao serviço nas redes sociais, alegando insatisfação. Testemunhas relataram que as reclamações se intensificaram nos dias seguintes.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Exigência de reembolso e agressão

O cabeleireiro relatou que a cliente passou a exigir reparação financeira após afirmar ter sofrido um “corte químico”, quando ocorre quebra intensa dos fios causada por excesso ou incompatibilidade de processos químicos. Na terça-feira, Laís voltou ao estabelecimento exigindo a devolução do dinheiro e começou a ameaçar os funcionários. “Nesse momento, ela começou a conversar com o meu gerente. Ela começou a se exaltar com palavras de cunho homofóbico, palavras de baixo calão, e eu chamei a segurança para conter ela.” De acordo com Eduardo, o gerente orientou a cliente a procurar a Justiça ou o Procon. Após a negativa do reembolso, ela pegou uma faca de serra e partiu para cima dele. O cabeleireiro sofreu um ferimento superficial nas costas e passou por exame de corpo de delito. Mesmo já imobilizada, a mulher continuou ameaçando o cabeleireiro, segundo depoimentos colhidos pela polícia.

Declarações e desabafo da vítima

De acordo com o boletim de ocorrência, Laís afirmou que Eduardo “morreria de qualquer jeito” caso o dinheiro não fosse devolvido e disse que poderia mandar terceiros praticarem o crime. Outra testemunha relatou que ela afirmou que o cabeleireiro “estava marcado para morrer, nem que tivesse que trabalhar para pagar por isso”. “Eu tive que ouvir na delegacia que isso não ia dar em nada, porque eu não tenho parentes influentes, porque eu não era ninguém. No fim, parece que eu estou errado, e não ela. Isso também me abalou muito”, desabafou Eduardo.

Em vídeos gravados depois da agressão, Laís afirmou que sua franja havia ficado “parecendo o Cebolinha”, personagem da Turma da Mônica. “Ele pegou o meu cabelo e foi picotando com uma tesoura-navalha. Se vocês conseguem ver, a minha franja está parecendo o Cebolinha”, disse. No mesmo vídeo, ela admitiu ter feito uma ofensa homofóbica ao profissional antes da agressão.