Vereadora Luciana Novaes: legado de superação e 200 leis na Câmara do Rio
Vereadora Luciana Novaes: legado de superação e 200 leis

A ex-vereadora Luciana Novaes, que teve a morte cerebral confirmada nesta semana, será velada na próxima segunda-feira, dia 4 de agosto, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. O velório ocorrerá no Saguão José do Patrocínio, no Palácio Pedro Ernesto, na Cinelândia, a partir das 10h. A trajetória de Luciana é marcada por superação e resiliência, tendo proposto quase 200 leis durante sua atuação parlamentar, muitas delas aprovadas.

O acidente que mudou sua vida

Em 5 de maio de 2003, Luciana, então estudante de enfermagem, foi atingida por uma bala perdida na coluna cervical enquanto estava na lanchonete da Universidade Estácio de Sá, no Rio Comprido, Zona Norte do Rio. O tiro atingiu sua mandíbula esquerda, destruiu parte da terceira vértebra cervical e se alojou na medula, deixando-a tetraplégica. Na época, as investigações apontaram como hipótese que traficantes do Morro do Turano teriam disparado em direção ao campus em represália à universidade ter funcionado durante um luto pelo desaparecimento de duas pessoas e morte de uma terceira em suposta operação policial. Outra hipótese era que o tiro partiu do próprio campus. Os médicos estimaram sua chance de sobreviver em apenas 1%. Ela ficou 1 ano e 10 meses internada e só voltou a sair de casa em 2005, em seu aniversário de 22 anos, quando foi a um culto religioso e viu o mar novamente. A Estácio de Sá foi condenada pelo Tribunal de Justiça do Rio a pagar indenização de R$ 600 mil.

Carreira política e legado

Luciana formou-se em Serviço Social e pós-graduou-se em Gestão Governamental. Foi eleita vereadora pelo PT por três mandatos, o primeiro em 2016, tornando-se a primeira pessoa tetraplégica a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal do Rio. Em 2022, candidatou-se a deputada federal, ficando como segunda suplente, e retornou à Câmara em 2023 como suplente. Suas pautas eram fortemente orientadas por sua vivência como mulher com deficiência e vítima de violência urbana. Presidiu a Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência e foi autora da Lei 8.781/2025, que institui a Política Municipal de Rotas Acessíveis do Rio. Também criou projetos para vagas prioritárias em escolas próximas para alunos com deficiência e processos avaliativos adaptados. Defendia direitos dos idosos, inclusão de pessoas em situação de rua, transparência, combate à corrupção e superação da pobreza.

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Complicações de saúde e morte cerebral

A ex-vereadora estava internada desde dezembro, após complicações iniciadas com uma fratura no ombro direito em 15 de outubro de 2025, seguida de pneumonia e infecção urinária. Segundo sua assessoria, sofreu uma “intercorrência súbita e grave, compatível com rompimento de aneurisma cerebral”, com piora crítica do quadro neurológico, levando ao protocolo de morte cerebral. A família informou que tentará doação de órgãos.

Repercussão e homenagens

Em nota, a família destacou: “Luciana foi luz onde muitos viam escuridão, esperança onde não se acreditava, coragem quando a vida exigiu bravura. Transformou dor em missão, obstáculos em ponte e sofrimento em amor ao próximo. Seus órgãos serão doados, gesto que traduz quem ela sempre foi.” A Câmara Municipal, por meio do presidente Carlo Caiado (PSD), manifestou pesar: “Luciana foi símbolo de perseverança e superação, deixando legado de quase 200 leis voltadas para inclusão, defesa das pessoas com deficiência, idosos e vulneráveis.” O prefeito Eduardo Cavaliere (PSD) decretou luto oficial de três dias em edição extra do Diário Oficial.

Luciana continuava ativa nas redes sociais. Em março, após o assassinato da médica Andréa Marins Dias em ação policial, escreveu: “Hoje estou refletindo a vida em silêncio. Cada vida importa. Cada história importa. Eu também fui vítima da violência. Um tiro mudou minha vida. Eu só queria que o mundo fosse um pouco menos violento.”

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