Justiça decreta prisão preventiva de 23 PMs por chacina em Miracema do Tocantins
Justiça decreta prisão preventiva de 23 PMs por chacina

A Justiça determinou, nesta sexta-feira (8), a prisão preventiva de 23 policiais militares suspeitos de participação na chacina de Miracema do Tocantins. As investigações indicam que militares de várias patentes atuaram em diferentes etapas da ação criminosa, que envolveu sequestro, execução e ocultação de provas. O grupo é investigado por suposto envolvimento em uma sequência de crimes violentos que resultou em seis assassinatos, ocorridos em 2022, logo após a morte do policial militar Anamon Rodrigues de Sousa durante um confronto em uma plantação de mandioca.

Os militares investigados se apresentaram nesta sexta-feira na sede do Comando Geral da Polícia Militar, em Palmas. A medida foi negociada entre o Ministério Público Estadual (MPTO) e o comando da polícia. Em seguida, eles foram levados para a Delegacia Geral da Polícia Civil. Entre os investigados estão oficiais de alta patente, como o tenente-coronel Douglas Luiz da Silva, ajudante de ordens do governador; os majores Wallas de Sousa Melo, Yurg Noleto Coelho e Wilquer Barbosa de Sousa; e o capitão Gleiston Ribeiro Pereira. Além deles, pelo menos outros 18 militares, incluindo tenentes, sargentos, cabos e soldados, também são suspeitos de participação nos crimes.

Participação dos oficiais

Conforme a decisão colegiada dos juízes da 1ª Vara Criminal de Miracema do Tocantins, cada oficial teve um papel específico na ação criminosa:

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  • Tenente-coronel Douglas Luiz da Silva: é apontado como integrante de uma equipe que utilizou um veículo oficial para permanecer por longo período no local onde três vítimas foram abordadas, no loteamento Jardim Buriti. Registros indicam que o carro ficou estacionado em ponto estratégico durante a madrugada e depois seguiu trajeto compatível com o deslocamento de quatro jovens abordados. O grupo teria omitido essa permanência, sugerindo tentativa de ocultar a movimentação.
  • Major Wallas de Sousa Melo: aparece nas investigações sobre a invasão da Delegacia de Miracema, visto circulando nas imediações horas antes do ataque. Imagens mostram que ele passou em frente à unidade e permaneceu estacionado em local estratégico até pouco antes das execuções. Há indícios de que manteve contato com os executores e orientou a dispersão após os crimes, além de não ter determinado diligências imediatas.
  • Major Yurg Noleto Coelho: é apontado como uma das principais lideranças informais do grupo, tendo coordenado equipes, emitido ordens durante a ação e posicionado viaturas em pontos estratégicos com visão das rotas de fuga. Também há indícios de participação na retirada de equipamentos de gravação para eliminar provas e na organização das ações posteriores aos crimes.
  • Major Wilquer Barbosa de Sousa: é citado como responsável por atuação conjunta na manipulação de registros de viaturas, com possíveis irregularidades ou adulterações nos sistemas de monitoramento de veículos e alinhamento de versões com outros envolvidos.
  • Capitão Gleiston Ribeiro Pereira: teve a participação associada ao uso de um veículo que circulou repetidamente entre o local da abordagem e o loteamento onde ocorreram as execuções. Registros técnicos mostram que o carro esteve presente nos momentos-chave da ação. Também há indicação de que o capitão procurou informações sobre a vítima sobrevivente após o crime, sugerindo interesse direto no desfecho do caso.

Além das prisões, a decisão impôs sanções rigorosas a todos os 23 presos, incluindo afastamento imediato das funções públicas, suspensão da posse e do porte de armas de fogo (particulares ou funcionais), proibição de acesso a unidades policiais e proibição de contato com a vítima sobrevivente, familiares das vítimas e investigadores. Um outro policial militar não teve a prisão decretada, mas foi submetido às mesmas medidas cautelares.

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Quem são as vítimas

Na mesma noite da morte de Anamon Rodrigues, Valbiano Marinho da Silva foi assassinado em casa, por suspeita de envolvimento com a morte do PM. Na madrugada de sábado, 5 de fevereiro, Manoel Soares da Silva e Edson Marinho da Silva, pai e irmão de Valbiano, foram assassinados dentro de uma delegacia quando 15 pessoas encapuzadas invadiram o local. No dia seguinte, mais três corpos foram encontrados no loteamento Jardim Buriti: Aprigio Feitosa da Luz, de 24 anos; Gabriel Alves Coelho, de 21 anos; e Pedro Henrique de Sousa Rodrigues, de 18 anos.

Dinâmica dos crimes

De acordo com a decisão judicial, a investigação da Polícia Civil revelou que os crimes ocorreram de forma coordenada entre os dias 4 e 5 de fevereiro de 2022, estruturados em quatro episódios principais:

  1. Morte do sargento Anamon Rodrigues de Sousa: ocorrida durante um confronto armado em um mandiocal.
  2. Execução de Valbiano Alves Marinho: morto a tiros na porta de sua casa enquanto estava sob custódia informal de policiais da Agência Local de Inteligência (ALI).
  3. Invasão da Delegacia de Polícia de Miracema: ação articulada que resultou na execução de Manoel Soares da Silva e Edson Marinho da Silva (pai e irmão de Valbiano) dentro da unidade policial.
  4. Mortes no loteamento Jardins Buritis: sequestro, tortura e execução de quatro jovens, com apenas um sobrevivente.

Notas oficiais

A Polícia Militar do Tocantins informou que acompanha o caso por meio da Corregedoria-Geral da PMTO, prestando o apoio institucional necessário ao cumprimento das determinações judiciais e às autoridades responsáveis pela investigação. A corporação reafirmou que não compactua com desvios de conduta e que os fatos serão apurados pelos órgãos competentes, assegurando o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa.

A Casa Militar informou que o tenente-coronel Douglas Luiz foi afastado de todas as suas funções de Ajudante de Ordens e de todas as agendas oficiais.

O advogado Paulo Roberto, que faz a defesa dos militares citados, informou que ainda não teve acesso à decisão que decretou as prisões e que, tão logo tenha conhecimento, poderá emitir um parecer sobre a situação.