Quase 12 anos depois do desaparecimento do adolescente Davi da Silva, quatro ex-policiais militares acusados de envolvimento no caso estão sendo julgados em Maceió. O julgamento entrou no segundo dia nesta terça-feira (6).
MP cita caso do goleiro Bruno
Durante a sessão, o Ministério Público de Alagoas (MP/AL) afirmou que a ausência do corpo não impede a condenação dos réus. O promotor Thiago Riff citou o caso do goleiro Bruno Fernandes como exemplo. “Quando não tem corpo, costumam afirmar que a pessoa está viva. Mas não sejamos ingênuos”, disse. “Essa será a tese da defesa: a de que não há corpo e, portanto, não há materialidade do crime. Mas já tivemos um caso semelhante, como o do goleiro Bruno Fernandes.”
O promotor também destacou que o MP não atua apenas para acusar e pode pedir absolvição quando não há provas. “O MP não é vilão. Já pedi absolvição, inclusive duas somente no mês passado. Aqui estamos julgando o crime, independentemente de antecedentes”, declarou.
Testemunha morta após depoimento
Durante a sustentação, Riff lembrou que uma das principais testemunhas do caso, Raniel, foi morta dias após prestar depoimento. “Não podemos ouvi-lo hoje. Ele voltou ao estado e três dias depois foi assassinado”, afirmou. A acusação destacou ainda que Raniel reconheceu quatro pessoas em um conjunto de 62 fotografias apresentadas durante a investigação. “Qual a probabilidade de alguém reconhecer quatro integrantes de uma mesma guarnição?”, questionou o promotor.
Emoção da família
O pai de Davi se emocionou durante o julgamento e precisou ser retirado do plenário, sendo atendido por uma equipe médica. A família acompanha o caso desde o desaparecimento do adolescente e também após a morte da mãe dele, Maria José, atingida por um tiro durante um atentado. A mãe de Davi, que era feirante e acompanhou o caso desde o início, morreu em dezembro de 2025 sem ver o desfecho do processo. O julgamento chegou a ser marcado anteriormente para outubro de 2025, mas também foi adiado. “Infelizmente, Davi não vai aparecer pela porta. Dona Maria esperou muito por isso”, disse o promotor.
Acusação aponta contradições
A promotora Lídia Malta afirmou que os jurados não estão julgando a Polícia Militar como instituição, mas a conduta dos acusados. “A polícia militar é motivo de orgulho, mas quem rasga o juramento e mata deve ser julgado”, disse. Ela também apontou contradições nos depoimentos dos réus e destacou que testemunhas demonstraram medo ao longo da investigação. Segundo a acusação, há divergências sobre trajetos e versões apresentadas pelos acusados, além de elementos técnicos que indicariam inconsistências.
Reação da defesa
Na réplica, o Ministério Público voltou a afirmar que o julgamento trata de possíveis desvios de conduta. Durante a sessão, houve tentativas de intervenção da defesa, que foram contidas pelo juiz. “Isso aqui não é um circo”, afirmou o magistrado. O julgamento segue com a apresentação dos quesitos ao conselho de sentença.
Davi da Silva tinha 17 anos quando desapareceu, no dia 25 de agosto de 2014, após ser abordado por policiais do Batalhão de Radiopatrulha da Polícia Militar, no Conjunto Cidade Sorriso I, no complexo do Benedito Bentes. Desde então, o jovem nunca mais foi visto e o corpo não foi encontrado. O caso envolve quatro policiais militares, três homens e uma mulher, que respondem em liberdade enquanto aguardam o julgamento. Eles são acusados de homicídio duplamente qualificado e ocultação de cadáver.



