Sobrevivente do Césio-137 em Goiânia revela dor e resiliência após série da Netflix
Lourdes das Neves Ferreira, 74 anos, uma das sobreviventes do trágico acidente com césio-137 ocorrido em Goiânia em 1987, compartilhou sua dolorosa experiência após assistir à série Emergência Radioativa da Netflix. Em depoimento emocionante, ela detalha as perdas familiares, o longo isolamento e as diferenças entre a ficção televisiva e a realidade vivida.
Revivendo o trauma através da série
Quando a série Emergência Radioativa foi lançada na plataforma de streaming, Lourdes assistiu por curiosidade, mas reviver aquela experiência não foi fácil. "Fiquei triste, mas ao mesmo tempo foi como montar um quebra-cabeças, pois tenho muitas lacunas na memória daquela época", revela. Ela destaca que, embora a produção não seja totalmente fiel aos fatos reais, grande parte do que sua família viveu está representada no programa.
Lourdes recorda o momento em que seu marido, Ivo, trouxe o pó radioativo para casa. "Tive pavor, medo, não achei bonito; não sei por quê", conta. Imediatamente, ela limpou toda a residência e lavou as roupas, sem saber do perigo que enfrentava.
O longo caminho do isolamento e das perdas
Assim como retratado na série, a família foi inicialmente isolada em um campo de futebol. No entanto, a personagem que a representa viveu situações diferentes da realidade de Lourdes. "Especialmente depois do estádio: ela ficou livre, foi trabalhar; eu fui levada para o prédio da antiga Febem", explica.
Na antiga Febem, montaram um dormitório para quem não precisava de hospitalização, mas ainda necessitava de isolamento. Lourdes passou três meses nesse alojamento, sem acesso a televisão, rádio ou qualquer meio de comunicação. "Todo dia me davam remédios e eu vivia dopada. Acho que faziam isso porque sabiam que as notícias não seriam boas", relata.
Durante esse período, ficou separada do esposo e dos dois filhos, Leide e Lucimar, que tinham 6 e 14 anos na época. Sua filha Leide, em estado grave, foi transferida para o Rio de Janeiro com o pai para receber atendimento especializado. Lourdes não pôde acompanhá-los e nunca mais viu a filha viva.
As consequências duradouras do acidente
A contaminação ocorreu em setembro de 1987. Em outubro do mesmo ano, Lourdes recebeu a notícia do falecimento de sua cunhada e, no mesmo dia, soube da morte de Leide. "Foi um momento tão duro, tão difícil", desabafa. No enterro da filha, ainda enfrentou manifestantes que se opunham à presença do corpo no cemitério. "Me despedi da minha filha sendo apedrejada", recorda com dor.
Após receberem alta, a família não tinha para onde ir, pois sua casa original foi demolida devido à alta contaminação. O governo forneceu uma nova residência, bem distante do local anterior, onde Lourdes vive até hoje. "Recomeçamos do zero, mas nunca foi a mesma coisa", afirma.
O acidente impactou profundamente sua vida. Além de perder a filha, tornou-se cuidadora do marido, que desenvolveu depressão e medo generalizado. "Ivo se culpava por ter levado o pó para casa, contaminando os filhos", conta. Ele faleceu de enfisema pulmonar em junho de 1994.
Seu filho, hoje com 52 anos, possui saúde delicada, com histórico de pneumonias múltiplas e três paradas cardíacas em 2001. Apesar das adversidades, Lourdes encontrou alegria em sua família, que inclui uma filha mais velha, quatro netas e doze bisnetos.
Decisão de lutar e buscar felicidade
"Mesmo com essa tragédia, decidi lutar e ser feliz. Se sobrevivi, é porque Deus quis", declara com determinação. Ela mantém viva a memória da filha Leide através de fotografias. "Era uma menina alegre, e o sorrisão dela manda minha tristeza embora", emociona-se.
Atualmente, Lourdes prefere não associar seus problemas de saúde diretamente ao césio-137. "Se eu fizer isso, vou ficar louca", admite. Ela sofre de pressão alta e problemas na coluna e articulações, atribuindo-os principalmente à idade.
Impacto da série e busca por justiça
A série Emergência Radioativa ajudou a trazer o assunto de volta ao debate público. Lourdes revela que o reajuste da pensão das vítimas estava congelado há oito anos em 954 reais. "Agora, vamos receber um salário mínimo. Estávamos esquecidos", afirma.
Ela finaliza com um alerta importante: "O que passamos foi muito grave e não pode se repetir de jeito nenhum". Sua história é um testemunho de resiliência frente a uma das maiores tragédias radioativas do Brasil, mantendo viva a memória das vítimas e a busca por reconhecimento e justiça.



