Disputa judicial entre Epic Games e empresário curitibano pela marca 'Futsac'
Epic Games disputa marca 'Futsac' com empresário curitibano

Disputa judicial pela marca 'Futsac' coloca empresário curitibano contra gigante Epic Games

A marca "Futsac", criada em Curitiba para comercializar produtos relacionados ao futebol de saco, tornou-se o centro de uma intensa disputa judicial que opõe o empresário paranaense Marcos Juliano Ofenbock à poderosa Epic Games, desenvolvedora norte-americana do fenômeno mundial Fortnite. A empresa entrou com processo na Justiça do Rio de Janeiro buscando anular o registro da marca, que foi concedido ao empresário em 2011 pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

Origens da marca e do conflito

O registro do nome "Futsac" foi realizado por Ofenbock em 2011, com uma modalidade mista (incluindo nome e elementos visuais) sendo registrada dois anos depois, em 2013. A marca foi criada especificamente para explorar comercialmente a modalidade esportiva desenvolvida pelo próprio empresário em 2002, através da venda de bolas especiais para a prática do futebol de saco.

Essas bolas são produzidas artesanalmente em crochê e preenchidas com material plástico granulado reciclado, representando não apenas um produto esportivo, mas também uma fonte de renda para dezenas de crocheteiras organizadas na Associação Curitibana de Crochê desde 2006.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

O futebol de saco, posteriormente renomeado para evitar confusão com a marca, recebeu reconhecimento oficial do Ministério do Esporte em 2014 e foi alvo de leis específicas no estado do Paraná e no município de Curitiba, sendo considerado o primeiro esporte criado na capital paranaense.

A entrada da Epic Games no cenário

A disputa judicial teve início quando a Epic Games, empresa avaliada em impressionantes 31 bilhões de dólares, começou a vender dentro do Fortnite um emote (movimento realizado pelos personagens) denominado "Futsac". Nesta animação, o personagem do jogo imita gestos característicos dos praticantes do futebol de saco.

Nos Estados Unidos, o mesmo emote foi comercializado sob o nome "Sacking", mas no mercado brasileiro a empresa optou por utilizar diretamente o termo "Futsac". Ao descobrir o uso de sua marca registrada, Ofenbock tentou contato com a Epic Games, inicialmente sem obter resposta, e posteriormente através de representantes legais da empresa no Brasil.

Argumentos das partes envolvidas

A Epic Games fundamenta sua ação judicial alegando que:

  • O termo "futsac" seria descritivo de uma modalidade esportiva e, portanto, não poderia ser apropriado com exclusividade como marca
  • A empresa começou a usar o termo no jogo em julho de 2020, antes que Ofenbock solicitasse a extensão do registro para incluir a categoria "videogames"
  • As empresas atuam em segmentos de mercado distintos, sem concorrência direta
  • Dois usos idênticos poderiam coexistir desde que em mercados diferentes

Por outro lado, Ofenbock e sua defesa argumentam que:

  1. A marca foi registrada legitimamente em 2011, muito antes do uso pela Epic Games
  2. O empresário já havia licenciado a marca para grandes clubes brasileiros como Flamengo, Santos, Cruzeiro e Palmeiras
  3. A ação da Epic Games representa uma "batalha de Davi contra Golias", com uma empresa bilionária afetando um pequeno empreendedor brasileiro
  4. A disputa viola a proteção constitucional às manifestações esportivas de criação nacional

Desdobramentos jurídicos e impactos

A Epic Games entrou com ação solicitando a anulação do registro da marca e obteve uma liminar que suspendeu temporariamente quatro marcas registradas por Ofenbock relacionadas ao futsac. A defesa do empresário recorreu e conseguiu reverter a anulação em três dessas marcas, enquanto a quarta ainda aguarda decisão judicial.

O INPI, que inicialmente deferiu o registro por entender que não infringia normas legais, revisou sua posição após os argumentos apresentados pela Epic Games. O órgão concluiu que o termo "não teria distintividade para assinalar produtos e serviços esportivos" e manifestou-se pela anulação do registro, embora tenha mantido a validade das marcas mistas (que incluem logo e nome).

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Enquanto as marcas permanecem com efeitos suspensos, Ofenbock mantém a propriedade sobre elas, mas outras pessoas e empresas podem utilizá-las sem compensação financeira. Esta situação de insegurança jurídica já afastou investidores interessados na marca e suspendeu a produção das bolinhas de crochê, impactando diretamente dezenas de crocheteiras que dependiam desse trabalho.

Precedentes e implicações mais amplas

O advogado Pedro Mattei, responsável pela defesa de Ofenbock, alerta que esta disputa pode estabelecer um precedente perigoso para a exploração comercial de esportes criados no Brasil. Atualmente, existem 27 modalidades esportivas de criação nacional catalogadas e protegidas pela Constituição Federal.

"Imagine que os criadores começam a comercializar os seus produtos mundo afora e começam a capitalizar, começam a enriquecer o seu negócio, que é justo, que é lícito. E em determinado momento uma empresa vem ao Brasil e tenta anular essa marca porque quer utilizá-la, mas não quer pagar royalties, não quer pagar o direito de licenciamento", exemplifica o especialista em direito desportivo.

A alteração legislativa ocorrida em 2025, que mudou a referência oficial de "futsac" para "futebol de saco" nas leis municipal e estadual, reforça a distinção entre a marca registrada e o nome da modalidade esportiva, mas não resolve a disputa judicial que continua em andamento sem prazo definido para conclusão.