Mulher trans é morta a tiros após pegar arma de policial que caiu em confusão em Campo Grande
Mulher trans morta após pegar arma de PM que caiu em confusão

Mulher trans é morta a tiros após pegar arma de policial que caiu durante confusão em Campo Grande

Uma mulher trans identificada como Gabriella perdeu a vida na noite de segunda-feira (16), após ser baleada pela Polícia Militar durante uma confusão na Avenida Calógeras, na região comercial de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Segundo informações da corporação, ela foi atingida depois de pegar a arma de um dos policiais, que caiu no chão durante uma abordagem, e apontá-la para a equipe.

Detalhes do ocorrido e versões divergentes

Imagens de câmeras de segurança mostram os policiais militares tentando conter uma discussão entre pessoas que estavam no cruzamento da Avenida Calógeras com a Rua 15 de Novembro, durante patrulhamento de rotina. Durante a abordagem, houve luta corporal entre o grupo da PM e moradores em situação de rua. Nesse momento, um dos policiais deixou a arma cair da farda.

Gabriella então pegou o revólver e apontou contra a equipe, sendo imediatamente alvejada. Ela foi socorrida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), mas não resistiu aos ferimentos.

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Em depoimento, o policial militar que atirou afirmou ter feito três disparos. Já o irmão da vítima, Vitor de Paula Rodrigues do Nascimento, disse que a médica da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) informou que Gabriella foi atingida por quatro tiros. O caso está sendo investigado pelas autoridades competentes.

Histórico pessoal e contexto familiar

Ao g1, o irmão da vítima contou que Gabriella era usuária de drogas e fazia aniversário justamente na segunda-feira em que ocorreu o incidente. Segundo Vitor, o vício se agravou após a morte da mãe.

“Tem uns quatro a cinco anos que ela estava nessa vida. Ela já havia sido internada em clínicas, na Clínica da Alma, já foi para São Paulo. Fiz de tudo para tirar ela dessa vida, só que ela não queria. Ela ficava muito no Cetremi, o pessoal do Cetremi gostava muito dela”, relembrou o irmão.

Uma amiga contou a Vitor que Gabriella estava trabalhando e pretendia comemorar o aniversário naquela noite. “Ela saiu para curtir o aniversário, aí acontece uma fatalidade dessa. É complicado, eu sempre falei para ela: ‘Vamos sair dessa vida, mana, vamos sair dessa vida, porque do jeito que você está indo…’. Ela tinha um estopim muito curto, não tinha medo de ninguém”, disse Vitor emocionado.

Posicionamento da Polícia Militar

Em nota oficial, a Polícia Militar afirmou que “reitera que os procedimentos operacionais padrão foram seguidos e que um Inquérito Policial Militar (IPM) será instaurado para apurar todas as circunstâncias do fato, como é praxe em ocorrências que envolvem o uso de arma de fogo por parte de seus membros”.

A corporação destacou que a ação ocorreu em legítima defesa após Gabriella pegar a arma que caiu durante a confusão e apontá-la para os policiais. No entanto, o número exato de disparos e as circunstâncias detalhadas ainda estão sendo apuradas.

Nota da Associação das Travestis e Transexuais de Mato Grosso do Sul

A Associação das Travestis e Transexuais de Mato Grosso do Sul (ATTMS) divulgou uma nota extensa lamentando a morte de Gabriella e questionando o uso da força pelos policiais.

No documento, a associação afirma: “É com profundo pesar que recebemos a triste notícia do falecimento de Gabriella, pessoa trans em situação de rua. Gabriella foi alvejada hoje, 16 de fevereiro de 2026, por quatro disparos de arma de fogo efetuados por um Policial Militar”.

A ATTMS destacou ainda que “lamentamos profundamente o ocorrido em um país onde a expectativa de vida da população trans e travesti não ultrapassa, em média, 35 anos, e que segue figurando entre os países que mais assassinam pessoas trans no mundo”.

A associação reconhece que “o ato de pegar e apontar uma arma para a polícia não é a melhor escolha, e a polícia pode e deve agir em legítima defesa”, mas questiona a proporcionalidade da força utilizada.

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“No entanto, não se pode apagar os dados históricos de violência e discriminação com que forças policiais, reiteradamente, agem contra travestis e transexuais no Brasil. Em Campo Grande/MS, isso não é diferente, visto que, em passado recente, eram comuns os chamados arrastões, além de torturas, espancamentos e violências físicas, psicológicas e verbais”, afirma a nota.

Questionamentos sobre o uso da força

A ATTMS questiona especificamente: “Quatro disparos de arma de fogo não podem ser automaticamente compreendidos como legítima defesa sem uma análise técnica minuciosa. O que se tem agora é o extermínio de uma pessoa trans, fato gravíssimo que exige apuração séria, técnica e imediata por parte do MPE e demais órgãos competentes”.

A associação também menciona a necessidade de apurar “o que ocorreu antes da abordagem, quais ofensas foram proferidas, quais ataques antecederam os disparos, quais violências geraram outras violências — inclusive por parte dela e dos próprios policiais — e, sobretudo, qual foi o motivo da utilização de armamento letal, considerando que existem instrumentos não letais que poderiam ter sido empregados”.

Contexto social e violência contra população trans

A nota da ATTMS traz um panorama preocupante sobre a violência estrutural no Brasil: “Por outro lado, também somos o país onde a polícia mais mata, tendo como principais vítimas jovens pretos e pardos das periferias; ao mesmo tempo, muitos policiais mortos também são, em sua maioria, homens negros oriundos dessas mesmas periferias. Trata-se de um ciclo estrutural de violência que precisa ser enfrentado com responsabilidade e seriedade”.

A associação também denuncia a reação nas redes sociais: “Ao realizarmos varreduras nas redes sociais, constatamos que não faltam comentários transfóbicos, com ataques, xingamentos, palavras de baixo calão e manifestações de cunho criminoso. Tais conteúdos serão levados às autoridades competentes, pois opinião não se confunde com violência verbal”.

Investigações em andamento

O caso está sendo investigado tanto pela Polícia Militar, através do Inquérito Policial Militar (IPM), quanto pelo Ministério Público Estadual. As imagens das câmeras de segurança estão sendo analisadas para reconstituir com precisão os momentos que antecederam os disparos.

A ATTMS afirmou que “irá denunciar e exigir apuração real e transparente do ocorrido, juntamente com a sociedade civil organizada, que não se calará até que tudo seja devidamente esclarecido”.

A associação finaliza com um apelo: “Caso se constate excesso, que haja punições. O papel da polícia é servir e proteger - nunca agredir, constranger, muito menos ferir ou matar”.

O corpo de Gabriella foi encaminhado para o Instituto Médico Legal (IML) de Campo Grande, onde será realizado o exame de corpo de delito. A família aguarda a liberação do corpo para realizar o sepultamento.