O mestre de jiu-jitsu Melquisedec de Lima Galvão Ferreira, de 47 anos, conhecido como Melqui Galvão, foi preso temporariamente sob suspeita de cometer crimes sexuais contra adolescentes que treinavam em suas academias. O caso ganhou repercussão após a primeira vítima registrar queixa e conceder entrevista exclusiva ao Fantástico, em ligação intermediada pela mãe.
Relato da primeira vítima
A adolescente, que preferiu não se identificar, contou que havia acabado de entrar para a equipe quando viajou com o treinador para um campeonato no exterior. Durante a viagem, o comportamento dele teria mudado. "Ele estava muito estranho, me oferecendo um remédio para eu relaxar, para lutar bem no dia seguinte", disse. Ela tomou o medicamento e cochilou. "Quando acordei, ele tinha colocado a mão dentro da minha blusa. Foi a hora que eu tirei a mão dele, mas fiquei com muito medo", relatou.
De volta ao Brasil, a jovem contou tudo aos pais, que confrontaram o treinador. Em áudio enviado à família, Melqui Galvão minimizou o episódio. "Eu não coloquei a mão por baixo da blusa da sua filha. A barriga dela tava aparecendo e eu toquei na barriga dela. Achei que ela estivesse dormindo, uns três segundos, no máximo", afirmou. Em outro trecho, sugeriu que a relação teria sido mal interpretada: "Ela me tratava de uma maneira que nenhum aluno me tratava. Isso me levou a crer que existia alguma coisa além de um sentimento de aluno e professor".
Reação da família
Para a mãe da adolescente, ouvir a gravação foi devastador. "Ali ficou claro que ele nunca viu minha filha como atleta. Sempre olhou com outros olhos", disse. A família também relatou que Melqui ofereceu uma suposta oportunidade de negócio para evitar a denúncia. "Vocês entrariam como sócios de uma academia nos Estados Unidos. Isso muda a vida de vocês. Se você denunciar, muita gente vai se prejudicar", disse o treinador no áudio. A mãe afirmou que "o tempo todo ele tentava jogar a responsabilidade dos atos dele para cima da gente".
Outras vítimas
Além da primeira denunciante, outras duas ex-alunas também acusaram o treinador. Uma delas começou a treinar ainda criança e afirmou que os assédios começaram aos 12 anos. Uma terceira vítima, também menor de idade, disse em depoimento que não sofreu abuso sexual, mas relatou controle de alimentação e sugestões de vantagens em troca de aproximação física. Segundo a polícia, após a divulgação do caso, novas denúncias informais surgiram, indicando possível padrão de conduta ao longo dos anos.
Investigação e prisão
A Polícia Civil informou que três ex-alunas formalizaram denúncias. A Justiça de São Paulo autorizou a prisão temporária após identificar indícios de que o treinador estaria tentando atrapalhar as investigações e suprimir provas. Também foi determinada a quebra do sigilo de aparelhos celulares e dispositivos de informática. Ele responde por importunação sexual, estupro de vulnerável, invasão de dispositivo informático e ameaça.
As vítimas esperam que o caso resulte em punição e sirva para proteger outras jovens atletas. "A luta mais difícil que eu já ganhei foi essa", afirmou a adolescente. A defesa do treinador afirma que ele é inocente, diz que ainda não teve acesso completo aos materiais e ressalta que o cliente está à disposição das autoridades.



