Mulher de desembargador mente à PF sobre encontro de Macário Judice com Michel Temer
Mulher de desembargador mente à PF sobre encontro com Temer

Em um desdobramento significativo das investigações sobre o crime organizado, a mulher do desembargador Macário Judice, Flávia Judice, forneceu informações falsas à Polícia Federal durante seu depoimento. O caso, que envolve figuras de alto escalão do Judiciário e da política, revela tentativas de interferência nas investigações conduzidas pelo Supremo Tribunal Federal.

Omissões e mentiras no depoimento

Flávia Judice, que ocupa um cargo na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, mentiu aos investigadores da PF sobre os movimentos do marido pouco antes de sua prisão, em dezembro de 2025. Ela omitiu que quase não permanecia no Rio, apesar de sua função legislativa, e forneceu versões inconsistentes sobre uma viagem crucial de Macário Judice a São Paulo.

Viagem para São Paulo e o envolvimento de Michel Temer

Como revelado pelo Radar, a Polícia Federal descobriu que Macário Judice viajou para São Paulo dias após a prisão de Rodrigo Bacellar, então presidente afastado da Alerj. O objetivo da viagem era solicitar a ajuda do ex-presidente Michel Temer para atuar como interlocutor junto ao ministro Alexandre de Moraes, relator das investigações no STF.

A PF, através de interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça, grampeou as conversas entre o desembargador e sua esposa. Essas gravações forneceram todos os detalhes do plano elaborado por Macário Judice: utilizar Temer como ponte para se aproximar de Moraes e, assim, tentar evitar sua própria prisão por envolvimento com organizações criminosas.

O depoimento contraditório de Flávia Judice

No dia da prisão do marido, Flávia Judice prestou depoimento à Polícia Federal sem saber que suas comunicações haviam sido monitoradas. Quando questionada sobre a viagem repentina de Macário a São Paulo em 10 de dezembro de 2025, ela forneceu respostas evasivas e contraditórias.

Veja um trecho do diálogo com os delegados:

Delegado: A senhora sabe, pode me informar, por que o seu marido viajou repentinamente a São Paulo agora no dia 10 de dezembro de 2025? Semana passada.

Flávia: Não, ele tinha uma reunião.

Delegado: Foi a senhora que comprou essa passagem? Qual que é o teor dessa reunião.

Flávia: Foi. Como é que eu vou saber? Não sei.

Delegado: O objetivo da viagem.

Flávia: Também não sei. Ele só falou que precisou ir para São Paulo fazer uma reunião.

Impacto nas investigações e na defesa

A defesa do desembargador Macário Judice argumenta que o relatório produzido pela Polícia Federal, que detalha essas inconsistências, enfraquece a tese utilizada para decretar sua prisão. Os advogados sustentam que as supostas mentiras de Flávia Judice não corroboram as acusações de envolvimento com o crime organizado.

Entretanto, as interceptações telefônicas e as contradições no depoimento reforçam as suspeitas da força-tarefa sobre tentativas de obstrução da Justiça e de manipulação das investigações. O caso continua sob análise do Supremo Tribunal Federal, com o ministro Alexandre de Moraes à frente do processo.

Este episódio ilustra a complexidade das operações contra o crime organizado no Brasil, envolvendo autoridades do Judiciário, figuras políticas e tentativas de influência em instâncias superiores. A Polícia Federal mantém o sigilo sobre outros detalhes da investigação, que pode resultar em novas prisões e delações premiadas.