A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro assumiu, nas últimas semanas, um papel central na estratégia do clã para tentar alterar a situação do ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente preso. Seu objetivo principal é conseguir a transferência dele para o regime de prisão domiciliar, movimentando-se junto ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Diálogo no STF e o argumento da saúde
Michelle Bolsonaro tem sido a principal articuladora política da família. Além de ser responsável por organizar a alimentação do ex-presidente na Penitenciária da Papuda, ela abriu um canal de diálogo direto com ministros do STF. Conversou com integrantes da Corte, como o ministro Gilmar Mendes, que possuem influência sobre o relator do caso, Alexandre de Moraes.
O argumento central apresentado por Michelle é o contraste com o caso do ex-presidente Fernando Collor. Ela alerta que Collor, após ser preso, rapidamente obteve o benefício da prisão domiciliar por razões humanitárias, enquanto Bolsonaro permanece no regime fechado. A defesa da ex-primeira-dama martela a condição de saúde do ex-presidente, sugerindo que qualquer falha nos cuidados médicos na prisão poderia levar a um desfecho trágico.
Na lógica apresentada aos ministros, a morte de Bolsonaro sob custódia do Estado seria um peso eterno para o STF. A família e seus aliados sustentam que a saúde dele abre espaço para o "imponderável" enquanto ele não estiver em casa.
A resistência de Moraes e o histórico de riscos
Entretanto, do lado do ministro Alexandre de Moraes, a avaliação é distinta. A principal razão para a negativa do benefício, conforme a visão do relator, é o histórico de Bolsonaro em relação ao risco de fuga. O ex-presidente já violou o uso de tornozeleira eletrônica no passado.
Além disso, foi interceptado um plano escrito pelo filho Flávio Bolsonaro que detalhava uma possível fuga do país pela Argentina. Esses e outros episódios, que ocorreram quando Bolsonaro já estava sob medidas restritivas em casa, são vistos pelo ministro como indicativos concretos de que ele não cumpriria as regras do domiciliar.
Tensão familiar e o "carnaval" dos filhos
Enquanto Michelle Bolsonaro toca o que aliados chamam de "serviço pesado" – as articulações políticas delicadas e o cuidado direto –, uma tensão silenciosa se estabelece com os filhos do ex-presidente: Flávio, Eduardo e Carlos. Aliados próximos à ex-primeira-dama usam a expressão "carnaval" para descrever a atuação dos três.
A crítica é que os filhos estariam focados em seus projetos pessoais e na construção de suas próprias imagens nas redes sociais, enquanto a situação do pai permanece crítica. "Os filhos dele só pensam nos próprios projetos. Só sabem tirar foto e fazer média nas redes", desabafou um aliado, em referência a Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro.
Há também um componente político-eleitoral nessa disputa interna. Aliados avaliam que, no regime domiciliar, Jair Bolsonaro teria muito mais capacidade de influenciar a escolha de candidatos e articulações para as próximas eleições presidenciais. Atualmente, essa influência é exercida principalmente pelos filhos, sem a interferência direta do ex-presidente, o que gera desconforto em parte da cúpula bolsonarista.
As movimentações ocorreram ao longo de janeiro de 2026, com a rejeição do pedido de prisão domiciliar sendo mantida pelo ministro Alexandre de Moraes. A situação, portanto, permanece inalterada: Bolsonaro segue na Papuda, Michelle continua sua campanha nos bastidores, e os filhos mantêm suas atividades públicas, enquanto a família navega por um momento de crise e disputas internas.