CPI do Crime Organizado rejeita relatório que pedia indiciamento de ministros do STF e do PGR
CPI rejeita relatório que pedia indiciamento de ministros do STF

CPI do Crime Organizado arquiva relatório polêmico após votação tensa

Em uma terça-feira marcada por intensas tensões institucionais, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado chegou ao fim com a rejeição do relatório que pedia o indiciamento de três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do procurador-geral da República. O documento, elaborado pelo senador relator Alessandro Vieira (MDB), foi arquivado após uma votação que expôs as divisões políticas no Congresso Nacional.

Relatório histórico e pedidos de indiciamento

O senador Alessandro Vieira apresentou um relatório de mais de 200 páginas que sugeria o indiciamento dos ministros do STF Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet, por crimes de responsabilidade. O documento argumentava que a CPI enfrentou "enormes barreiras políticas e institucionais" durante suas investigações sobre a expansão de milícias e facções criminosas.

Vieira fundamentou seus pedidos com alegações específicas sobre cada ministro. No caso de Dias Toffoli, o relator citou a relação financeira do magistrado, por meio da empresa Maridt, com um fundo de investimento ligado a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master investigado na Operação Compliance Zero. "A conexão não é remota nem indireta", afirmou Vieira no relatório.

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Sobre Alexandre de Moraes, o senador mencionou a relação financeira do escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, com o Banco Master, destacando contratos que totalizavam R$ 129 milhões, com R$ 80 milhões efetivamente pagos. Já em relação a Gilmar Mendes, Vieira criticou a decisão do ministro que anulou a quebra dos sigilos da empresa Maridt, aprovada por unanimidade pela CPI.

Reações imediatas e tensão institucional

As reações dos ministros do Supremo foram rápidas e contundentes. Gilmar Mendes e Dias Toffoli afirmaram que excessos em CPI podem configurar crime de abuso de poder. Toffoli classificou o relatório como "eleitoreiro" e alertou que poderia resultar em inelegibilidade para seus autores.

O ministro Flávio Dino, que não foi citado no documento, defendeu a atuação do STF contra o crime organizado, enquanto o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, criticou o que chamou de "agressão permanente às instituições republicanas" sem mencionar diretamente a CPI.

Durante a sessão da Segunda Turma do STF, Gilmar Mendes afirmou que o pedido de indiciamento "não tem base legal" e representa "um erro histórico". Dias Toffoli foi ainda mais enfático: "Isso, senhor presidente, é abuso de poder. Isso pode levar inclusive a inelegibilidade".

Manobra política e votação decisiva

Antes da leitura do relatório, uma articulação da base do governo alterou a composição da CPI. A liderança do MDB pediu a troca de dois senadores da oposição - Sergio Moro (PL) e Marcos do Val (Podemos) - por dois petistas: Beto Faro e Teresa Leitão. Essa mudança garantiu maioria governista na comissão.

A votação foi rápida e o relatório foi rejeitado por seis votos a quatro. Com a derrubada do documento, todas as suas recomendações, incluindo as propostas de mudanças na legislação e em órgãos de controle para o combate ao crime organizado, foram arquivadas.

Defesa do relator e posicionamento final

O senador Alessandro Vieira rebateu as críticas dos ministros do Supremo ao finalizar a leitura do relatório. "A CPI cumpriu sua missão constitucional", afirmou. "Os indiciamentos dos ministros do Supremo e do procurador-geral da República por crime de responsabilidade são medida inédita e historicamente necessária."

Vieira destacou que sua proposta não representava um ataque ao Poder Judiciário, mas sim um fortalecimento através da "exigência de condutas éticas e probas". O senador também relacionou o crime organizado com questões de soberania nacional, argumentando que "enquanto organizações criminosas exercerem seu poder sobre territórios, populações, instituições, o Estado Democrático de Direito permanecerá fragilizado".

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Manifestação da presidência do STF

Logo após a rejeição do relatório, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Luiz Edson Fachin, emitiu uma nota oficial repudiando "de forma enfática a indevida inclusão" dos ministros mencionados no documento. Fachin reconheceu o papel das CPIs como instrumento de fiscalização, mas alertou que "desvios de finalidade temática dessas comissões enfraquecem os pilares democráticos".

O presidente do STF reafirmou que "ninguém está acima da lei" e que os direitos fundamentais devem ser "integralmente observados", solidarizando-se com os colegas ministros mencionados no relatório da CPI do Crime Organizado.