Celulares de Daniel Vorcaro revelam ameaças a adversários e jornalistas, diz PF
Celulares de Vorcaro tinham ameaças a jornalistas, afirma PF

Celulares de Daniel Vorcaro continham ameaças diretas a adversários e jornalistas, revela investigação da PF

A Polícia Federal (PF) apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um pedido de prisão preventiva contra o banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do extinto Banco Master, com base em novas evidências alarmantes. Segundo o documento, os investigadores descobriram que os celulares apreendidos de Vorcaro continham mensagens com ameaças explícitas a adversários, incluindo jornalistas que cobriam o caso.

Ocultação bilionária persiste mesmo após liberdade condicional

A PF sustentou perante o STF que Daniel Vorcaro continuou a ocultar valores financeiros monumentais mesmo depois de ter sido colocado em liberdade em 28 de novembro de 2025. As investigações da Segunda Fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 14 de janeiro de 2026, revelaram que a organização criminosa supostamente liderada por Vorcaro manteve a prática de esconder recursos utilizando nomes de terceiros.

As autoridades identificaram um montante impressionante de R$ 2.245.235.850,24 registrado em uma conta bancária em nome do pai do banqueiro, Henrique Moura Vorcaro, mantida junto à CBSF DTVM, empresa conhecida no mercado financeiro como REAG. Este valor colossal só foi descoberto graças às medidas de bloqueio financeiro executadas durante a nova etapa das investigações.

Contraste chocante: FGC cobre rombo enquanto recursos são ocultados

Em um trecho particularmente contundente do pedido de prisão, a Polícia Federal estabelece uma comparação direta e dramática entre a ocultação dos recursos e o prejuízo causado pelo Banco Master no sistema financeiro brasileiro. Enquanto o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) precisou cobrir um rombo de quase R$ 40 bilhões deixado pela instituição financeira, Daniel Vorcaro supostamente escondia mais de R$ 2 bilhões de seus credores e vítimas.

"Enquanto o Fundo Garantidor de Crédito sangrava para cobrir o rombo bilionário, Vorcaro ocultava recursos junto a empresa conhecida por lavar dinheiro de organizações criminosas perigosas", afirmou a PF no documento, destacando que a conduta ilícita persistiu mesmo após a soltura do banqueiro.

Milícia privada e ameaças a jornalistas revelam gravidade do caso

As investigações da Polícia Federal revelaram a existência de uma estrutura que os investigadores classificaram como "milícia privada", denominada "A Turma", utilizada para monitorar ilegalmente e intimidar adversários, autoridades públicas e profissionais da imprensa. As interceptações de mensagens mostraram conversas alarmantes onde Vorcaro supostamente ordenava a agressão física do jornalista Lauro Jardim, do jornal "O Globo".

Nas mensagens, Vorcaro teria instruído seu coordenador de segurança, Luiz Phillipi Mourão, apelidado de "Sicário", para que o jornalista fosse agredido em um assalto forjado com o objetivo específico de "quebrar todos os dentes", como retaliação por publicações contrárias aos interesses do banqueiro. O jornal emitiu uma nota de repúdio classificando a ação como uma tentativa clara de calar a voz da imprensa livre.

Esquema complexo envolvia cooptação de autoridades e acesso a sistemas sigilosos

O documento da PF detalha ainda outros aspectos graves do esquema criminoso:

  • Acesso indevido a sistemas sigilosos da própria Polícia Federal, do Ministério Público Federal e até de organismos internacionais como o FBI e a Interpol para obtenção de dados protegidos
  • Cooptação de servidores de alto escalão do Banco Central, incluindo Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, que atuavam como "consultores informais" de Vorcaro
  • Pagamentos mensais que chegavam a R$ 1 milhão, operacionalizados por meio de contratos simulados de consultoria e empresas de fachada
  • Os servidores cooptados revisavam minutas de documentos que o próprio Banco Master enviaria ao órgão regulador e antecipavam movimentos de fiscalização

Decisão judicial e novas prisões no âmbito do Caso Master

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, acolheu o pedido da Polícia Federal e autorizou nova ordem de prisão preventiva contra Daniel Vorcaro, que foi efetivamente preso. A decisão judicial citou explicitamente organização criminosa, danos bilionários ao sistema financeiro e ameaça concreta às investigações e a opositores.

Além de Vorcaro, também foram presos na operação:

  1. Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro
  2. Luiz Phillipi Mourão, coordenador de segurança apelidado de "Sicário"
  3. Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado

O ministro André Mendonça destacou em sua decisão que a liberdade dos investigados colocava em risco a ordem pública, a integridade física de vítimas e autoridades, além de possibilitar a destruição de provas e a continuidade da lavagem de dinheiro. Como medidas cautelares adicionais, o ministro determinou:

  • Afastamento dos servidores do Banco Central de suas funções
  • Uso obrigatório de tornozeleira eletrônica pelos servidores cooptados
  • Suspensão das atividades de cinco empresas ligadas ao grupo de Vorcaro

Contexto do Banco Master e crise no sistema financeiro

A nova prisão de Daniel Vorcaro marca mais um capítulo na crise que levou à liquidação do Banco Master pelo Banco Central em novembro do ano passado. A instituição financeira operava sob risco elevado de insolvência, pressionada pelo alto custo de captação e por exposição a investimentos considerados excessivamente arriscados, com juros muito acima do padrão de mercado.

O sinal de alerta tornou-se mais evidente quando o banco passou a oferecer produtos financeiros, especialmente Certificados de Depósito Bancário (CDBs), com remunerações anormalmente elevadas. Tentativas de venda do Master, como a proposta apresentada pelo Banco de Brasília (BRB), não avançaram devido a questionamentos de órgãos de controle, falta de transparência, pressões políticas e menções ao banco em investigações em curso.

A crise também atingiu outras instituições do mesmo grupo, resultando na liquidação do Will Bank e do Banco Pleno, ampliando ainda mais os prejuízos no sistema financeiro brasileiro e reforçando a necessidade de medidas rigorosas de supervisão e controle.