Relatório do BRB revela irregularidades em contratos entre Master e Tirreno antes de venda
BRB aponta contratos Master-Tirreno com firma reconhecida 2 dias antes de venda

Relatório interno do BRB expõe cronologia questionável em contratos com Banco Master

Um documento confidencial do Banco Regional de Brasília (BRB) traz à tona detalhes preocupantes sobre as operações de crédito entre o Banco Master e a empresa Tirreno. Segundo o relatório finalizado em 19 de maio de 2025, os contratos tiveram firma reconhecida apenas dois dias antes do banco controlado por Daniel Vorcaro repassar a mesma carteira ao BRB.

O que significa reconhecer firma?

Reconhecer firma é o procedimento no qual um cartório atesta a autenticidade de uma assinatura em documento, confirmando que foi realizada pela pessoa identificada. No caso em questão, essa formalização ocorreu em momento considerado atípico pelas investigações.

Valores e suspeitas nas transações

As carteiras de crédito consignado da Tirreno foram inicialmente adquiridas pelo Master por R$ 6,3 bilhões e subsequentemente repassadas ao BRB pelo valor de R$ 11,5 bilhões. As investigações da Polícia Federal indicam que esses ativos não possuíam lastro adequado, sendo considerados "podres" no jargão financeiro.

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O relatório do BRB foi concluído menos de dois meses após o Banco de Brasília anunciar sua intenção de adquirir 58% das ações do Banco Master por R$ 2 bilhões. Essa operação foi posteriormente barrada pelo Banco Central, que determinou a liquidação da instituição financeira na mesma data em que prendeu Daniel Vorcaro.

Cronologia detalhada das operações

De acordo com o documento interno:

  1. No dia 5 de maio, o Master compartilhou com o BRB uma pasta contendo os contratos com a Tirreno.
  2. No dia seguinte, o BRB solicitou cópias dos contratos devidamente registradas em cartório e marcou reunião para 9 de maio.
  3. O Master recusou esse encontro inicial, solicitando reagendamento para 13 de maio.
  4. A reunião aconteceu na data remarcada, mas sem a presença dos responsáveis pela Tirreno.
  5. Dois dias depois, em 15 de maio, o banco de Vorcaro enviou ao BRB uma pasta compartilhada com 26 contratos de cessão.

O relatório revelou que os contratos haviam sido assinados manualmente e que o reconhecimento de firma ocorreu apenas no dia 13 de maio de 2025 - exatamente dois dias antes da reunião com o BRB e 19 dias após a última operação entre Master e Tirreno.

Questionamentos do BRB sobre os procedimentos

O documento do banco público destaca preocupações específicas: "A assinatura física e o reconhecimento posterior podem levantar questionamentos quanto à tempestividade e à formalização adequada dos documentos, sobretudo considerando o volume e a relevância financeira das operações envolvidas".

O parecer também chama atenção para a velocidade incomum das transações: "Outro ponto que merece destaque diz respeito à dinâmica das cessões: os créditos são adquiridos pelo Banco Master e, já no primeiro dia útil subsequente, são transferidos ao BRB. Essa velocidade na revenda, embora possa refletir uma estratégia operacional definida, impõe a necessidade de atenção especial quanto à conformidade documental, à efetiva transferência de risco e à adequação contábil".

Operação durante o Carnaval

Conforme já revelado por investigações anteriores, o Master realizou uma operação particularmente questionável: em 4 de março, terça-feira de Carnaval, comprou R$ 143,6 milhões em créditos da Tirreno e repassou ao BRB por R$ 251,2 milhões na Quarta-feira de Cinzas.

Esquema investigado pela Polícia Federal

As investigações da PF apontam que o BRB adquiriu um total de R$ 12 bilhões em carteiras de crédito consideradas podres, que não pertenciam efetivamente ao Master e não possuíam garantias financeiras adequadas.

A suspeita central é que o Banco Master não dispunha de fundos suficientes para honrar os títulos que emitiu, com vencimento programado para 2025. A instituição teria então adquirido créditos - sem realizar qualquer pagamento efetivo - da Tirreno para, em seguida, revendê-los ao BRB.

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Ocultamento da origem dos créditos

Em diversas reuniões, o Master escondeu sistematicamente a Tirreno como originária dos créditos cedidos ao BRB. A equipe do Banco de Brasília só descobriu essa informação crucial durante uma visita técnica realizada nos dias 29 e 30 de abril de 2025, quando constatou que as carteiras tinham a Tirreno como fonte real, e não o banco de Vorcaro como inicialmente apresentado.

O caso continua sob investigação das autoridades competentes, com o relatório do BRB servindo como peça fundamental para entender a cronologia e as possíveis irregularidades nas operações financeiras envolvendo as três entidades.