O policial penal Luciano de Lima Fagundes Pinheiro, conhecido como Bonitão, foi preso na manhã desta sexta-feira (24) em Orlando, nos Estados Unidos, por agentes da Drug Enforcement Administration (DEA), órgão federal do Departamento de Justiça dos EUA. A prisão ocorreu enquanto ele caminhava pela cidade. De acordo com apuração do g1, agentes do Enforcement and Removal Operations (ERO), braço do setor de imigração ligado ao ICE, também participaram da operação. O ERO é responsável por aplicar leis de imigração e alfândega, além de buscar imigrantes ilegais.
Detalhes da prisão
A prisão aconteceu cerca de 48 horas após a DEA solicitar informações sobre Luciano à Polícia Federal no Rio de Janeiro. O policial penal estava foragido desde 9 de março, quando seu nome foi incluído na Difusão Vermelha da Interpol. Ele era um dos procurados na Operação Anomalia e tinha mandado de prisão expedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Conhecido como Bonitão, Luciano é suspeito de ter atuado para atrasar a extradição de Gerel Lusiano Palm, traficante internacional de drogas.
Luciano reside em Orlando, onde trabalha em uma loja de material esportivo. Ele passará por uma audiência de custódia na Justiça americana, que avaliará medidas cabíveis e decidirá se o foragido da Justiça brasileira será deportado. As autoridades americanas buscam esclarecer sua possível ligação com Gerel Palm e com a facção Comando Vermelho, além de verificar sua situação legal no país.
Cidadania portuguesa e vínculo com o RJ
O policial penal possui cidadania portuguesa, o que facilitou sua entrada nos Estados Unidos, já que cidadãos portugueses não necessitam de visto para permanecer até 90 dias. Diferentemente de brasileiros, que precisam de visto para estar em solo americano. Apesar de morar nos EUA, Bonitão mantém vínculo com o governo do Rio de Janeiro. Em fevereiro, recebeu dois salários: um da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap), no valor de R$ 2.963,99, e outro do Instituto de Assistência dos Servidores do RJ (Iaserj), de R$ 3.234,74, totalizando R$ 6.198,73.
A Seap informou que Luciano pertence ao quadro da secretaria, mas esteve cedido a outros órgãos da administração pública estadual e federal. O Iaserj não se pronunciou até o momento.
Histórico criminal e investigações
Bonitão atuou como segurança de jogadores de futebol no início dos anos 2010, principalmente de atletas brasileiros que jogavam na Rússia. Em 2014, foi preso na Maré, acusado de ser informante do traficante Marcelo das Dores, o Menor P, e de servir como elo entre Menor P e o ex-chefe do tráfico na Rocinha, Antonio Bonfim Lopes, o Nem. Ele recorreu em liberdade e, após condenação, cumpriu pena e obteve reabilitação criminal na Justiça.
Em agosto de 2021, Bonitão foi alvo de investigação da Seap. Na ocasião, o faraó dos bitcoins, Glaidson Acácio, recebeu quatro pessoas no presídio durante o período de quarentena, entre elas dois funcionários públicos. Um deles se identificou como Luciano, mas apresentou número de matrícula desativado. A TV Globo apurou que se tratava de Bonitão, que negou ter visitado Glaidson.
Sem problemas com a Justiça, Luciano foi nomeado na Assembleia Legislativa do Rio pelo então presidente André Ceciliano (PT). Posteriormente, foi cedido ao gabinete do deputado Dr. Luizinho (PP) em Brasília, onde permaneceu até fevereiro de 2025. A assessoria de André Ceciliano afirmou que a indicação partiu do deputado André Lazaroni e que Ceciliano não se reuniu com o policial penal em Brasília. Desde então, Bonitão divide seu tempo entre o Rio e os Estados Unidos.
Operação Anomalia
Em 9 de março, a Polícia Federal deflagrou a primeira fase da Operação Anomalia. Quatro mandados de prisão foram expedidos pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF. Três pessoas foram presas: o delegado federal Fabrizio Romano, o ex-secretário de Esportes Alexandre Carracena e a advogada Patrícia Falcão. As investigações indicam que o grupo tentou adiar a extradição do traficante Gerel Lusiano Palm, condenado por homicídio na Holanda e investigado pela DEA por tráfico internacional. A ideia era impedir a extradição e conceder asilo a Gerel no Brasil.
Interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça revelam que o delegado Fabrizio Romano afirmou que Luciano manteve contato com o "homem de Brasília" e recebeu R$ 15 mil adiantados, com promessa de mais R$ 150 mil pagos pela advogada Patrícia caso a extradição fosse cancelada. Gerel foi preso pela Interpol no Rio em 2021 e permanece no sistema penitenciário do RJ, sem extradição.
Posicionamentos
A Seap afirmou que não foi oficialmente notificada sobre a investigação envolvendo o servidor, mas que o caso será apurado. A assessoria do deputado Dr. Luizinho não respondeu aos contatos do g1.



