O Superior Tribunal de Justiça (STJ) concedeu habeas corpus nesta quinta-feira (23) para libertar o funkeiro MC Ryan SP, preso no dia 15 em uma operação da Polícia Federal. A decisão do ministro Messod Azulay Neto considerou ilegal a prisão temporária de 30 dias, uma vez que a própria PF havia solicitado apenas cinco dias, prazo já expirado. O benefício se estende a outros presos na mesma situação, incluindo MC Poze do Rodo e os influenciadores Chrys Dias e Raphael Sousa Oliveira, criador da página Choquei.
Como o iCloud revelou o esquema
A investigação que culminou na megaoperação começou com a análise de arquivos armazenados no iCloud, sistema de armazenamento em nuvem da Apple, do contador Rodrigo de Paula Morgado. Esses dados foram obtidos durante a Operação Narco Bet, de outubro de 2025, derivada da Operação Narco Vela, de abril do mesmo ano. A partir do material, a PF mapeou uma organização criminosa autônoma, dedicada à lavagem de dinheiro em larga escala, movimentando mais de R$ 1,6 bilhão por meio de bets ilegais, rifas clandestinas, tráfico internacional de drogas, empresas de fachada, laranjas, criptomoedas e remessas ao exterior.
O iCloud de Morgado continha extratos, comprovantes, conversas, registros societários, contratos, procurações e documentos financeiros, funcionando como um verdadeiro mapa da organização. A PF conseguiu identificar a relação entre operadores financeiros, empresas de fachada, influenciadores e artistas. Morgado, apontado como peça-chave, articulava transferências bancárias, auxiliava na proteção patrimonial de MC Ryan SP e fazia repasses em nome de terceiros, além de prestar serviços de gerenciamento financeiro, ocultação patrimonial e evasão fiscal.
Papel de MC Ryan SP e MC Poze do Rodo
Segundo a decisão judicial, MC Ryan SP, nome artístico de Ryan Santana dos Santos, era o líder e principal beneficiário econômico do esquema. Ele usava empresas ligadas à produção musical e entretenimento para misturar receitas legítimas com recursos de apostas ilegais e rifas digitais. A PF afirma que ele montou mecanismos de blindagem patrimonial, transferindo participações societárias para familiares e terceiros, e utilizou operadores financeiros para distanciar o dinheiro ilícito de sua pessoa física antes de reinseri-lo na economia formal. Os recursos eram reinvestidos em imóveis, carros de luxo, joias e outros ativos de alto valor.
Já MC Poze do Rodo, nome de registro Marlon Brendon Coelho Couto da Silva, aparece vinculado a empresas e estruturas financeiras relacionadas à circulação de recursos de rifas digitais e apostas ilegais. A investigação aponta que ele integrava a engrenagem financeira da organização, ao lado de outros operadores. Uma de suas empresas, a EMPOZE - Editora, Gravadora e Prestação de Serviços Ltda., foi incluída na lista de bloqueios judiciais. Poze foi preso em casa, em um condomínio de luxo no Recreio dos Bandeirantes, Rio de Janeiro, e pode responder por lavagem de dinheiro, associação criminosa e evasão de divisas.
Operadores e influenciadores
A estrutura criminosa contava com funções bem definidas. Tiago de Oliveira, braço-direito de MC Ryan SP, atuava como procurador e gestor financeiro, centralizando recursos e redistribuindo dinheiro a operadores. Alexandre Paula de Sousa Santos, conhecido como Belga ou Xandex, fazia a ponte entre plataformas de apostas e empresas ligadas a Ryan, realizando centenas de transferências fracionadas (smurfing). Outros investigados, como Arlindma Gomes dos Santos, Lucas Felipe Silva Martins e Sydney Wendemacher Junior, atuavam como operadores logísticos, testas de ferro e titulares de bens.
Os influenciadores Raphael Sousa Oliveira (Choquei) e Chrys Dias eram usados para divulgar apostas, rifas e melhorar a imagem pública do grupo. Oliveira é apontado como operador de mídia, recebendo valores diretamente de Ryan e outros para promover conteúdos favoráveis. Chrys Dias e outros nomes aparecem como financiadores ou intermediários de valores oriundos de rifas digitais.
Apreensões e defesas
Na operação, a PF apreendeu carros de luxo, relógios, joias, armas, dinheiro em espécie e um colar com a imagem de Pablo Escobar dentro do mapa de São Paulo, encontrado na casa de MC Ryan SP. A Justiça determinou o bloqueio de bens e valores até R$ 1,63 bilhão, além de criptomoedas em corretoras como Foxbit, Mercado Bitcoin, Binance e Coinbase.
A defesa de MC Ryan SP afirmou que ainda não teve acesso aos autos sigilosos, mas declarou que todas as transações financeiras do cantor são lícitas. Já a defesa de MC Poze do Rodo disse desconhecer o teor do mandado de prisão e se manifestará na Justiça assim que tiver acesso ao processo.



