Policiais civis investigados por comandar rede de tráfico no Espírito Santo
Uma investigação conduzida pelo Ministério Público do Espírito Santo (MP-ES) em parceria com a Polícia Federal revelou um esquema criminoso de grande magnitude, onde policiais civis e militares, cuja função oficial era combater o tráfico de drogas, atuavam como peças centrais da própria organização criminosa no estado. As apurações indicam que esses agentes desviavam entorpecentes apreendidos em operações para posterior revenda no mercado ilegal.
O investigador do Denarc no centro das operações
No epicentro das investigações está o investigador da Polícia Civil Eduardo Tadeu Ribeiro Batista da Cunha, que atuava há mais de uma década no Departamento Especializado de Narcóticos (Denarc). Segundo promotores do MP-ES, ele é suspeito de comandar uma sofisticada rede que redirecionava drogas apreendidas para traficantes aliados. "O maior traficante do Espírito Santo é um policial civil", afirmou uma das testemunhas ouvidas durante as investigações, destacando a gravidade do caso.
Mecanismos do esquema criminoso
O modus operandi foi detalhado através de áudios, vídeos, mensagens e depoimentos coletados pelos investigadores. Traficantes presos relataram que eram abordados por policiais do Denarc, tinham drogas e dinheiro apreendidos, mas parte desse material era desviado antes do registro oficial. Posteriormente, os entorpecentes retornavam ao mercado, comercializados pelos próprios policiais ou por traficantes parceiros.
Os investigadores explicam: "Os policiais apreendiam de outros traficantes e revendiam para aqueles traficantes que eram aliados, de maneira a reintroduzir no mercado". O esquema não se limitava ao desvio de drogas, incluindo também:
- Cobrança de propina para liberar suspeitos
- Troca de favores entre agentes e criminosos
- Negociação direta de drogas por bens como veículos
Um caso emblemático envolve a apreensão de aproximadamente 500 quilos de maconha, dos quais apenas 207 quilos foram oficialmente registrados na delegacia - o restante teria sido desviado para o mercado ilegal.
Provas digitais e envolvimento de múltiplos agentes
As evidências que sustentam a investigação vieram, em grande parte, do celular de um traficante ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC), conhecido como "Passarinho", que atuava na região central de Vitória. As conversas, áudios e vídeos obtidos revelam uma relação próxima entre ele e o policial investigado Eduardo Tadeu.
O esquema criminoso não se restringia a um único agente. Ao todo, cinco policiais civis do Denarc são suspeitos de participação, além de 15 policiais militares investigados. Segundo o MP-ES, todos atuavam seguindo o mesmo padrão: desvio de drogas, cobrança de propina e manutenção de relações com traficantes para lucrar com a revenda.
Falhas institucionais e impacto na confiança pública
As suspeitas indicam que o esquema pode ter funcionado por pelo menos nove anos sem ser detectado internamente. A corregedoria da Polícia Civil afirmou que tinha uma investigação em andamento, mas que as ações foram antecipadas pelo Ministério Público e pela Polícia Federal.
Para os investigadores, o caso assume proporções especialmente graves por envolver justamente os agentes responsáveis pelo combate ao crime. "Eles causam muito mais dano à sociedade, porque ferem a confiança que a população deposita neles", afirmou um promotor envolvido nas apurações, destacando o profundo impacto na credibilidade das instituições policiais.
Medidas tomadas e posicionamentos
Até o momento, 14 policiais militares estão presos preventivamente. Entre os civis, houve afastamentos e prisões, incluindo a de Eduardo Tadeu e do investigador Herildo Rosa. A Polícia Militar do Espírito Santo informou que não concorda com condutas ilícitas de seus integrantes e que os investigados presos aguardam julgamento.
A defesa de Eduardo Tadeu não se manifestou sobre as acusações. O advogado de Erildo Rosa afirmou que aguarda acesso completo aos dados da investigação e disse que não há elementos concretos que comprovem a participação de seu cliente em organização criminosa. A Defensoria Pública, que representa o traficante conhecido como Passarinho, não comentou o caso.



