Nova Frente do Crime Organizado Explora Furto de Energia para Produzir Criptomoedas
O Brasil enfrenta uma nova e sofisticada modalidade de crime organizado: os chamados "criptogatos". Quadrilhas especializadas estão roubando milhões de reais em energia elétrica para alimentar supercomputadores que mineram criptomoedas, revelando uma operação de alta tecnologia que causa prejuízos significativos às concessionárias e desafia as forças de segurança.
Operação de Grande Escala em São Sebastião
No início deste ano, moradores de São Sebastião, região administrativa do Distrito Federal com aproximadamente 170 mil habitantes, começaram a sofrer com cortes frequentes de luz. A concessionária Neoenergia, notificada sobre o problema, identificou um aumento brusco e atípico no consumo de energia na área rural da localidade.
Com apoio policial, foram descobertas ligações clandestinas de impressionante escala técnica. Cabos, postes e transformadores ilegais abasteciam oito centrais de computadores ultrassofisticados dedicados à mineração de criptomoedas. O processo de mineração envolve a validação e verificação de transações em redes descentralizadas como o blockchain, gerando ativos financeiros digitais.
"Por baixo, a construção de cada unidade custou 1,5 milhão de reais", revela Arthur Franklin, gerente de gestão da Neoenergia. "Isso não é obra de bandidos comuns."
Prejuízos Milionários e Operação Policial Complexa
As investigações em andamento já apontam perdas próximas de 8 milhões de reais apenas na operação de São Sebastião. Uma das ações para desmantelar as centrais criminosas exigiu até mesmo o uso de um helicóptero da Polícia Civil para acessar áreas de mata cerrada onde as instalações foram montadas.
No último dia 7 de abril, outras duas centrais do mesmo grupo criminoso foram descobertas, demonstrando a extensão da operação. Os equipamentos apreendidos em São Sebastião totalizaram 654 unidades com potencial para gerar receita mensal de 400 mil reais em criptomoedas.
Expansão Nacional do Fenômeno
Especialistas consultados são unânimes em afirmar que os "criptogatos" se tornaram uma nova frente do crime organizado brasileiro. Polícias de Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Alagoas já registraram ocorrências semelhantes relacionadas à exploração ilegal de moedas digitais.
O golpe consiste em roubar energia para movimentar grandes infraestruturas tecnológicas que, quando operando continuamente, premiam seus donos com criptoativos. A necessidade de processamento ininterrupto de dados exige supercomputadores especializados conhecidos como Asics (Circuitos Integrados de Aplicação Específica), que geram calor excessivo e demandam resfriamento constante.
"É como se cada unidade fosse um chuveiro elétrico ligado de modo permanente", compara Rudá Pellini, fundador-presidente de uma empresa de data centers no Texas, Estados Unidos.
Economia do Crime Cripto
Como a tarifa de energia elétrica no Brasil está entre as mais caras do mundo, o negócio só se torna lucrativo com a subtração de megawatts. Se os criminosos de São Sebastião pagassem pelo volume de energia necessário — suficiente para abastecer uma cidade com 47 mil residências — seu lucro cairia mais de dez vezes, tornando a operação inviável economicamente.
Para baratear os investimentos iniciais, as quadrilhas compram as máquinas no mercado paralelo. Um modelo Asic de última geração custa no mínimo 30 mil reais quando adquirido legalmente, levando os mineradores digitais a recorrerem ao contrabando pelo Paraguai. Recentemente, a Polícia Rodoviária Federal apreendeu treze desses aparelhos na Via Dutra, com destino a Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.
Associação entre Técnicos e Criminosos
A complexidade técnica dessas operações levou investigadores a desconfiarem de uma associação entre profissionais com conhecimento especializado para montar os dispositivos e quadrilhas capazes de financiar e proteger as instalações.
No Rio de Janeiro, uma mineradora digital foi localizada em uma casa na entrada de uma favela na Ilha do Governador, funcionando claramente com "gato" de energia. Em Sorocaba, interior de São Paulo, um integrante de um esquema semelhante foi assassinado devido a conflitos sobre o retorno financeiro de três mineradoras instaladas na periferia do município.
"O sócio que entendia de informática prometeu um retorno substancial, que não veio", explica o delegado Rodrigo Ayres, da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic). "O bando achou que ele estava desviando dinheiro e executou o comparsa."
Desafios Jurídicos e Investigativos
Se capturados, os criminosos podem ser enquadrados no crime de furto de energia, com pena prevista de até quatro anos de reclusão — considerada branda diante da magnitude dos prejuízos causados. Por isso, as forças de segurança buscam indícios para caracterizar as ocorrências como associação criminosa e ocultação de valores.
As quadrilhas poderiam estar usando os aportes em criptomoedas para lavar dinheiro obtido em atividades ilegais mais lucrativas, como tráfico de drogas e armas. Identificar os responsáveis, no entanto, tem sido particularmente desafiador, já que a maioria das operações é controlada remotamente e conta com sistemas de monitoramento por câmeras.
Em São Sebastião, dois suspeitos chegaram a ser detidos, mas foram liberados na audiência de custódia. "Há uma divisão de tarefas, ainda estamos tentando identificar os cabeças da organização", afirma o delegado Ronney Matsui.
Anonimato Digital a Serviço do Crime
Os avanços tecnológicos que impulsionaram a humanidade também criaram novas oportunidades para a criminalidade. O anonimato facilitado pelas redes digitais transformou-se em ferramenta para organizações criminosas, cuja criatividade em busca de lucro ilícito parece não conhecer limites.
Esta nova modalidade de crime organizado combina conhecimento técnico especializado, infraestrutura de alto custo e operações sofisticadas, representando um desafio significativo para as autoridades brasileiras que precisam desenvolver estratégias específicas para combater os "criptogatos" e proteger o sistema elétrico nacional.



