Após 2.557 dias, Justiça examina tragédia de Brumadinho com 15 possíveis réus
Era uma sexta-feira, 25 de janeiro de 2019, quando Nayara Porto, então com 27 anos, preparava um pudim para o fim de semana, sobremesa preferida do marido Everton Lopes Ferreira, de 32 anos. Após colocar o doce no forno, escutou a vizinha conversando sobre a barragem da Vale que havia rompido. "Fiquei um pouco sem entender. Depois ela me chamou e perguntou se meu marido estava em casa. Eu falei que não estava, estava trabalhando, aí ela foi e me contou o que tinha acontecido", lembra Nayara em entrevista à jornalista Mara Régia, no programa Natureza Viva, da Rádio Nacional.
"Aí foi um desespero total", recorda. "Comecei a tentar falar com ele várias vezes, mas o telefone nem chamava mais. [Depois] fui tentando falar com alguns amigos dele que eu sabia que estavam lá, até que consegui falar com um que correu da lama [de rejeitos], que se salvou por um milagre de Deus. Ele falou comigo assim: oh Nayara, ora, pede a Deus. O armazém que era onde meu marido trabalhava, que era o almoxarifado, foi embora, não havia mais nada lá."
Processo judicial avança após sete anos sem responsabilização
O acidente, classificado como tragédia-crime pela Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem da Mina Córrego do Feijão (AVABRUM), ocorreu por volta de 12h30 do dia 25 de janeiro de 2019, em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais. Duzentas e setenta e duas pessoas foram mortas.
Passados exatos 2.557 dias neste domingo, 25 de janeiro de 2026, ninguém foi responsabilizado criminalmente pelo ocorrido. No entanto, sete anos após o episódio, abre-se finalmente a possibilidade de que 15 pessoas respondam pelo acidente na Justiça.
As audiências de instrução começam no dia 23 de fevereiro na 2ª Vara Federal Criminal da Subseção Judiciária de Belo Horizonte. Até maio de 2027, vítimas não letais, testemunhas e réus serão ouvidos. Ao final deste extenso prazo, a juíza federal Raquel Vasconcelos Alves de Lima poderá decidir levar o caso para julgamento em júri popular.
Quinze pessoas na mira da Justiça Federal
Os quinze possíveis réus incluem onze ex-diretores, gerentes e engenheiros da Vale, empresa privatizada em 1997, e quatro empregados da TÜV SÜD, empresa multinacional de capital alemão contratada para monitorar e atestar a qualidade da barragem que rompeu.
Para a jornalista Cristina Serra, autora do livro "Tragédia em Mariana: A história do maior desastre ambiental do Brasil" (editora Record), é possível associar o caso de Brumadinho com outros episódios de graves acidentes e consequências ambientais no Brasil.
- O rompimento da barragem de Mariana (MG) em novembro de 2015, controlada pela Samarco Mineração S.A. (da Vale S.A. e BHP Billiton)
- O afundamento do solo em Maceió (AL), desde fevereiro de 2018, por causa da exploração de minas de sal-gema pela mineradora brasileira Braskem
"Nos três casos até o momento não há nenhum responsável punido criminalmente", destaca Serra.
Fiscalização deficiente e prioridade ao lucro
Em entrevista ao programa Natureza Viva, Cristina Serra lembra que são três incidentes relacionados a empresas de mineração que "operam com muita irresponsabilidade, sem levar em conta aspectos essenciais da segurança". Para ela, as companhias "não investem tanto na segurança da operação, como deveriam, porque querem, claro, sempre aumentar a sua margem de lucro".
A jornalista ainda assinala "outra ponta dessa história": órgãos públicos de fiscalização, "tanto estaduais quanto em nível federal", não exercem de fato seu papel. "Não vão in loco ver o que está acontecendo. Tanto a fiscalização quanto os processos de licenciamento são processos burocráticos que dependem de muita papelada. Documentos que as empresas mandam e que os órgãos de fiscalização simplesmente aceitam como se aquela informação estivesse correta."
Posicionamento das empresas envolvidas
Procurados pela reportagem da Agência Brasil, representantes da Vale afirmaram que não comentam sobre a ação judicial em tramitação, mas enumeraram as ações de reparação em andamento na região. A empresa destaca em comunicado que "avança na reparação dos impactos do rompimento em Brumadinho, com a execução econômica, até dezembro de 2025, de 81% do Acordo Judicial de Reparação Integral e com investimentos que vão além das indenizações".
As ações incluem recuperação socioambiental, garantia de abastecimento hídrico e iniciativas para diversificação econômica da região. A empresa informa ainda que, paralelamente, investe na segurança de suas barragens.
Já a Samarco, responsável pela barragem que se rompeu em Mariana em 2015, respondeu em nota que reafirma sua solidariedade às pessoas, comunidades e territórios impactados. Com a assinatura do Novo Acordo do Rio Doce em 2024, a Samarco passou a assumir diretamente a responsabilidade pela condução das ações de reparação e compensação.
Segundo a empresa, ao longo desse período, "milhares de pessoas foram indenizadas, novos distritos construídos e entregues às comunidades, e ações relevantes de recuperação ambiental continuam sendo executadas nos estados de Minas Gerais e do Espírito Santo".
Memória das vítimas permanece viva
Neste domingo, às 11h, a Avabrum promove ato dedicado à memória das 272 pessoas mortas pela tragédia da barragem de rejeitos da Mina Córrego do Feijão. O evento será no Letreiro de Brumadinho, na entrada da cidade (rodovia MG 40, cerca de 100 metros do radar da entrada).
Enquanto as famílias aguardam por justiça há mais de sete anos, o processo judicial finalmente avança, trazendo esperança de que responsabilizações criminais possam finalmente ser estabelecidas para uma das maiores tragédias socioambientais da história do Brasil.