STJ condena escola de SP a pagar R$ 1 milhão por morte de aluna em excursão em 2015
STJ condena escola a pagar R$ 1 milhão por morte de aluna

Estudante é encontrada morta em fazenda após excursão escolar obrigatória

O engenheiro João Carlos Natalini dedicou os últimos dez anos de sua vida a uma missão dupla: provar que a morte da filha Victoria não foi acidental e buscar justiça. Desde setembro de 2015, quando a adolescente de 17 anos desapareceu durante uma atividade escolar na Fazenda Pereiras, em Itatiba, interior de São Paulo, ele assumiu o papel de pai enlutado e investigador particular.

Decisão histórica do STJ após longa batalha judicial

No início deste mês, a 4ª Turma do Superior Tribunal de Justiça decidiu, por unanimidade, condenar a Escola Waldorf Rudolf Steiner, de São Paulo, a pagar indenização por danos morais de R$ 1 milhão ao pai de Victoria. O tribunal reverteu decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo que havia reduzido o valor para R$ 400 mil, restabelecendo o montante fixado em primeira instância.

"A gente nunca fica feliz em uma situação desse tipo", afirma Natalini. "Mas a gente fica satisfeito que a sentença tenha sido feita da forma como foi, extremamente técnica, e porque foi confirmada a negligência da escola de forma cabal."

Para a família, a decisão representa uma virada não apenas jurídica, mas simbólica na longa batalha travada desde a tragédia. No entanto, o caso ainda não está encerrado, com a expectativa agora voltada para a responsabilização criminal dos envolvidos.

Os fatos que levaram à tragédia

Em 11 de setembro de 2015, um ônibus com estudantes da escola paulistana seguiu para a fazenda no interior paulista, onde os jovens passariam uma semana realizando estudos práticos sobre matemática e topografia. Segundo o pai, a atividade não era opcional, mas sim um trabalho valendo nota.

No quinto dia da excursão, por volta das 14h30, Victoria avisou aos colegas que iria ao banheiro e seguiu por uma trilha em direção à sede da propriedade. Essa foi a última vez em que a jovem foi vista com vida. Cerca de duas horas depois, quando os colegas estranharam sua ausência, começaram as buscas.

O corpo da adolescente foi encontrado no dia seguinte, a aproximadamente 1.200 metros da sede da fazenda, em direção oposta ao banheiro que pretendia usar. Inicialmente, as autoridades consideraram a possibilidade de morte natural, hipótese que a família sempre rejeitou.

Mudança crucial na investigação

O primeiro laudo do Instituto Médico Legal de Jundiaí apontou "causa indeterminada, sugestiva de morte natural", levando autoridades a cogitarem convulsão ou problema de saúde súbito. Diante da percepção de que a investigação não avançava, a família contratou peritos independentes.

A pressão resultou na transferência do caso para o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa de São Paulo. Em 2016, um novo laudo mudou completamente a narrativa: Victoria morreu por asfixia mecânica, por sufocação direta, provavelmente causada por alguém que tapou sua boca e nariz com as mãos. A morte passou oficialmente a ser tratada como homicídio.

Negligência escolar confirmada judicialmente

Paralelamente à investigação criminal, a família moveu ação civil contra a escola. Após mais de uma década no Judiciário, o STJ consolidou tecnicamente pontos que a família sustentava desde o início:

  • Falta de estrutura adequada para a atividade
  • Inexistência de plano de contingência
  • Professores que deveriam acompanhar os alunos estavam confortavelmente na sede
  • Victoria permaneceu desaparecida por horas sem que educadores percebessem
  • Professores colocaram alunos para procurar a adolescente na mata

"Foram atitudes descabidas que colocaram outros alunos potencialmente em risco", afirma Natalini sobre as decisões tomadas após o desaparecimento.

O capítulo criminal ainda em aberto

O inquérito policial foi desmembrado em duas frentes:

  1. Investiga a responsabilidade de professores e gestores pelo possível crime de abandono de incapaz com resultado morte
  2. Busca identificar quem matou Victoria

"Os gestores que organizaram aquele trabalho precisam ser responsabilizados", defende o pai. "Não havia monitores suficientes, não havia controle dos alunos, não havia comunicação por rádio nem plano de emergência. Era uma estrutura extremamente amadora para uma atividade com 34 adolescentes."

A investigação sobre o autor do homicídio chegou a ser arquivada por falta de suspeitos, mas foi reaberta em junho de 2025 após insistência da família. Atualmente, as diligências estão em fase final de apuração no DHPP.

A vida interrompida de Victoria

Por trás dos laudos periciais e volumes processuais, permanece o vazio deixado pela adolescente. "Minha filha foi uma das melhores pessoas que eu conheci em termos de coração, delicadeza e gentileza", diz Natalini, cujo discurso técnico muda de tom quando fala da filha.

Victoria tinha planos concretos para o futuro. Perto do vestibular, descobriu interesse pela gastronomia e começou a cozinhar em casa, principalmente doces. "Ela falou: 'Pai, quero ser chef de cozinha'. Era o sonho dela", recorda o pai.

Poucos dias após a excursão escolar, a família viajaria a Porto Alegre para assistir a um show do Queen, com passagens, hotel e ingressos já comprados. A música sempre fez parte da relação entre pai e filha, desde quando Natalini dançava com Victoria no colo ao som de música clássica.

Mobilização pública por justiça

Sem respostas definitivas após mais de uma década, o pai transformou a busca por justiça em mobilização pública. Um abaixo-assinado online reúne dezenas de milhares de assinaturas pedindo avanço nas investigações, enquanto páginas nas redes sociais divulgam atualizações e pressionam autoridades.

"A gente percebeu que essa dor não é só nossa", reflete Natalini. "Existe muita gente passando por situações semelhantes."

A escola, por meio de nota, afirmou que "a trágica perda de Victoria é sentida até hoje por todos que trabalham, estudam ou prestam serviço à instituição", destacando que a excursão ocorria desde 2005 sem intercorrências e que já foi responsabilizada civilmente pela morte da aluna.

Para Natalini, a decisão do STJ representa não apenas uma reparação financeira, mas principalmente uma afirmação da verdade: "Agora fica cabal e claro que foi um homicídio". A longa jornada, no entanto, só terminará quando todos os responsáveis forem devidamente identificados e punidos.