Polícia Civil reconstrói morte de líder indígena após queda em ninho de formigas em Roraima
A Polícia Civil de Roraima apresentou a reconstituição dos fatos que levaram à morte do líder indígena Gabriel Ferreira Rodrigues, de 28 anos, encontrado sem vida no dia 10 de fevereiro em Amajari, ao Norte do estado. Segundo a perícia, o cenário predominante indica que o jovem sofreu um acidente de moto seguido de um ataque de formigas tucandeiras, que causou dor extrema, pânico e desorientação, fazendo-o arrancar as próprias roupas e adentrar a mata onde foi localizado.
Detalhes da reconstituição do acidente
A reconstrução dos fatos apontou que Gabriel ingeria bebida alcoólica na comunidade Juracy e, por volta das 5h30 do dia 1º de fevereiro, pilotava uma moto sem capacete pela rodovia RR-203. No quilômetro 26, ele perdeu o controle da direção e bateu de frente com um caimbezeiro na lateral da pista.
A perícia descartou o envolvimento de outro veículo, pois encontrou seiva da planta na moto e vestígios do veículo na árvore. Após o acidente, Gabriel teria caído da margem da estrada sobre um ninho de formigas tucandeiras, conhecidas por terem uma ferroada extremamente dolorosa.
"Quando ele cai da moto, perde momentaneamente a consciência e cai em cima de um ninho de tucandeiras. Nesse ataque dessas formigas, em função da dor, do desespero e do pânico, ele tira as roupas", detalhou o perito criminal Sttefani Ribeiro.
Causa da morte e investigações em andamento
O corpo de Gabriel foi localizado quase 10 dias após o desaparecimento, em estado avançado de decomposição, vestindo apenas cueca e meia. A identificação foi feita por meio da arcada dentária. Duas lesões no pescoço do líder chegaram a levantar suspeitas de ação criminosa, mas a perícia descartou a hipótese ao constatar que os ferimentos ocorreram somente após a morte, causados por animais da região.
A causa da morte foi classificada como indeterminada, pois não foram encontradas fraturas no corpo, segundo o médico-legista Deyne Morais. Durante a queda, Gabriel sofreu apenas um pequeno furo perto da gola da camisa, provocado por um galho ou espinho, que causou um sangramento mínimo.
Apesar das conclusões periciais, a possibilidade de homicídio ainda segue em investigação, devido a elementos sem resposta, como o sumiço dos anéis que a vítima usava. A análise do celular do jovem não apontou indícios de crimes ou ameaças, conforme confirmou o chefe do Núcleo de Inteligência da PCRR, Ricardo Pedrosa.
Posicionamento do Conselho Indígena de Roraima
Em nota, o Conselho Indígena de Roraima (CIR) afirmou que o histórico do caso exige cautela e ressaltou que a hipótese de ação de terceiros não foi completamente afastada. A organização destacou circunstâncias que ainda causam "profunda preocupação" às comunidades.
Segundo o conselho indígena, devido à motocicleta, o celular e as roupas de Gabriel terem sido encontrados a cerca de 250 metros de distância de onde o corpo estava e por ele ter sido localizado sem camisa, calça ou calçados, o caso não deve ser encerrado.
O CIR informou que vai buscar especialistas independentes para analisar os laudos e que pedirá novas diligências periciais, além de acionar a Polícia Federal e o Ministério Público Federal (MPF). "O CIR seguirá acompanhando o caso até que não reste dúvida razoável sobre as circunstâncias da morte", declarou a organização.
Repercussão e próximos passos
Os laudos periciais foram apresentados na última sexta-feira (20) a lideranças do CIR e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). O tuxaua-geral do CIR, Amarildo Macuxi, considerou o compartilhamento das informações positivo, mas ressaltou que as comunidades indígenas continuarão vigilantes.
O delegado-geral da Polícia Civil, Luciano Silvestre, destacou o foco na transparência das investigações. Os laudos foram encaminhados para a análise da procuradoria da Funai, segundo a coordenadora regional do órgão, Marizete de Souza.
O MPF informou que a investigação do caso é acompanhada pelo Ministério Público de Roraima, mas instaurou um procedimento para monitorar a segurança e a proteção dos direitos coletivos das comunidades indígenas da região de Amajari. O órgão federal também afirmou que solicitará à Polícia Civil uma cópia do inquérito sobre a morte de Gabriel para análise e adoção de providências cabíveis.



