Operação Fallax: PF desarticula esquema bilionário de fraude bancária com ligações ao crime organizado
A Polícia Federal deflagrou nesta quarta-feira (25) uma grande operação contra um sofisticado esquema de fraude bancária e lavagem de dinheiro que pode ter movimentado valores superiores a R$ 500 milhões. Batizada de Fallax, a ação resultou na prisão de 14 pessoas e no cumprimento de 43 mandados de busca e apreensão nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.
Grupo Fictor e Comando Vermelho compartilhavam mesma estrutura criminosa
As investigações, iniciadas em 2024, revelaram que o Grupo Fictor e células da facção Comando Vermelho (CV) utilizavam o mesmo mecanismo ilícito baseado em empresas de fachada, movimentações financeiras simuladas e cooptação de funcionários de bancos. Segundo a PF, a Fictor funcionava como núcleo financeiro central do esquema, injetando recursos que alimentavam simulações de fluxo de caixa e ajudando a montar a estrutura fraudulenta.
O CEO da Fictor, Rafael de Gois, foi um dos alvos de busca e apreensão na capital paulista. Em nota, seus advogados informaram que apenas um celular foi apreendido e que esclarecimentos serão prestados às autoridades. O ex-sócio Luiz Rubini também foi alvo de mandados judiciais.
Esquema profissionalizado com seis pilares de atuação
O modelo criminoso desmontado pela PF era estruturado em seis pilares fundamentais:
- Criação em massa de empresas fictícias com características padronizadas
- Captação de "laranjas" e dados pessoais de terceiros
- Contabilidade fraudada para simular faturamento elevado
- Movimentação artificial de dinheiro entre as empresas
- Participação ativa de funcionários bancários corrompidos
- Inadimplência planejada após período de operação
As empresas de fachada eram abertas com sócio único, capital social simulado e objeto social genérico, chegando a cumprir obrigações fiscais nos primeiros meses para criar aparência de regularidade. Documentos contábeis como DRE e ECF eram manipulados para justificar a obtenção de crédito bancário.
Envolvimento de bancários foi crucial para o esquema
A investigação aponta que a engrenagem só funcionava devido à participação direta de funcionários de instituições financeiras. Entre os presos, há dois gerentes da Caixa Econômica Federal e uma ex-gerente do Banco do Brasil. Esses profissionais inseriam dados falsos nos sistemas bancários, facilitavam saques e transferências indevidas, e aceleravam a aprovação de operações de crédito com base em informações manipuladas.
Segundo a PF, essa cooptação era peça essencial para dar aparência de legalidade ao esquema e permitir que grandes somas circulassem rapidamente entre as empresas fictícias. Instituições como Caixa, Banco do Brasil, Bradesco, Santander e Safra teriam sofrido prejuízos milionários com o golpe.
Lavagem de dinheiro do tráfico e conversão em bens de luxo
Células do Comando Vermelho aproveitavam a mesma estrutura para lavar recursos provenientes do tráfico de drogas. O dinheiro ilícito circulava pelas empresas de fachada e era posteriormente convertido em bens de luxo e criptoativos, dificultando o rastreamento pelas autoridades. Para a PF, o compartilhamento do esquema revela um "ecossistema criminoso" usado por empresários, operadores financeiros e facções.
Recuperação judicial e crise no Grupo Fictor
O Grupo Fictor enfrenta sérias dificuldades financeiras desde o ano passado. Em 17 de novembro de 2023, a empresa anunciou a compra do Banco Master, envolvendo investidores árabes e um aporte de R$ 3 bilhões. Poucas horas depois, o Banco Central anunciou a liquidação extrajudicial do banco de Daniel Vorcaro.
Após a liquidação, a Fictor sofreu uma crise reputacional severa, resultando em resgates de aproximadamente R$ 2 bilhões por investidores. A situação levou ao pedido de recuperação judicial das empresas Fictor Holding e Fictor Invest perante o Tribunal de Justiça de São Paulo.
Medidas cautelares e possíveis penas
A Justiça Federal determinou o bloqueio e sequestro de bens imóveis, veículos e ativos financeiros até o limite de R$ 47 milhões, com objetivo de descapitalizar a organização criminosa. Também foram autorizadas medidas para rastreamento de ativos, incluindo quebra de sigilo bancário e fiscal de 33 pessoas físicas e 172 pessoas jurídicas.
Os investigados poderão responder por diversos crimes, incluindo organização criminosa, estelionato qualificado, lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta, corrupção ativa e passiva, e crimes contra o sistema financeiro nacional. Somadas, as penas podem ultrapassar 50 anos de reclusão.
Posicionamento institucional
Em nota, a Caixa Econômica Federal informou que atua permanentemente em cooperação com órgãos de segurança pública no combate a fraudes bancárias. O banco afirmou possuir políticas rigorosas de prevenção e combate a lavagem de dinheiro, alinhadas às melhores práticas de mercado e à legislação vigente. A instituição reforçou que casos de irregularidades são imediatamente reportados às autoridades competentes.
A operação contou com apoio da Polícia Militar de São Paulo e representa um duro golpe em um dos mais sofisticados esquemas de fraude financeira desarticulados nos últimos anos no país.



