A Polícia Militar prendeu nesta quinta-feira (15) a meia-irmã do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB). A identificação foi feita por uma câmera do programa Smart Sampa, sistema de reconhecimento visual que é um dos carros-chefe da gestão municipal na área de segurança.
Como a prisão aconteceu
Janaína Reis Miron, de 49 anos, foi localizada em uma unidade básica de saúde na rua Clara Mantelli, no bairro Veleiros, zona sul da capital paulista. Contra ela, havia dois mandados de prisão em aberto relacionados a crimes de desacato, lesão corporal e embriaguez ao volante, com penas previstas para serem cumpridas em regime aberto.
O sistema do Smart Sampa funciona comparando o rosto das pessoas que passam pelas câmeras de monitoramento com um banco de dados de indivíduos procurados pela Justiça. Quando há uma correspondência, um alerta é emitido para que as autoridades policiais realizem a detenção.
A prefeitura, por meio de sua assessoria, limitou-se a afirmar que "a prisão está amparada em mandados judiciais, obedeceu ao rigor da lei e foi executada seguindo os critérios de identificação do Smart Sampa". A reportagem apurou que o prefeito Ricardo Nunes não mantém contato com a irmã há aproximadamente dez anos.
Os crimes que levaram às condenações
Os processos judiciais contra Janaína revelam casos graves. Um boletim de ocorrência de 10 de novembro de 2014 descreve que seu filho, então com 11 anos, foi agredido ao voltar da escola. As agressões incluíam mordidas no braço, puxões de cabelo, batidas da cabeça contra a parede e arremesso de sapatos.
O Ministério Público, ao oferecer denúncia, citou que a acusada "fazia uso abusivo de bebidas alcoólicas e costumava agredir seus filhos". Em 18 de abril de 2024, ela foi condenada a oito meses de detenção, pena convertida em prestação de serviços à comunidade.
O segundo processo detalha que, em 20 de outubro de 2022, policiais rodoviários a flagraram dirigindo em zigue-zague na rodovia João Hipolito Martins, em Botucatu. Os agentes relataram que ela apresentava fala pastosa, odor de álcool e andar cambaleante.
No registro da prisão em flagrante, consta ainda que Janaína teria insultado os policiais, chamando-os de "bando de vagabundos" e dizendo que eram "inferiores ao meu marido, que é capitão da PM". Ela negou embriaguez, alegando efeito de medicação. Por este caso, foi condenada ao pagamento de um salário mínimo e a prestar serviços comunitários por um ano e três meses.
Descumprimento de pena e mandados de prisão
Os dois mandados de prisão que resultaram na detenção desta quinta-feira foram emitidos porque Janaína não cumpriu as condições das sentenças. O primeiro, de 11 de novembro de 2025, informa que ela não teria cumprido penas restritivas de direito, que foram então convertidas em pena privativa de liberdade.
O segundo mandado, datado de 28 de novembro do ano passado, aponta que a sentenciada não foi localizada para uma audiência admonitória, onde seria informada sobre as regras para cumprir a sentença. Entre as condições estavam:
- Apresentação trimestral em juízo
- Recolhimento residencial entre 22h e 6h
- Proibição de frequentar locais com venda de bebida alcoólica
A região onde Janaína foi detida é a mesma onde reside o prefeito Ricardo Nunes. Ela foi conduzida para o 11º DP (Santo Amaro).
Balanço do Smart Sampa
Segundo dados divulgados pela prefeitura, o sistema Smart Sampa já resultou na prisão de 2.630 foragidos até as 17h desta quinta-feira. Além disso, outras 3.650 pessoas foram detidas em flagrante por meio do programa, que se tornou uma ferramenta central na estratégia de segurança da cidade.
A eficácia do reconhecimento facial, no entanto, se mistura a questões de privacidade e ao debate sobre a atuação do Estado. O caso envolvendo uma familiar do próprio prefeito ilustra como a tecnologia é aplicada independentemente de vínculos políticos ou sociais.