Médico de 90 anos é envenenado com arsênio por ex-secretária, revela perícia capilar
Médico de 90 anos envenenado com arsênio por ex-secretária

Médico de 90 anos é vítima de envenenamento prolongado com arsênio por ex-secretária

O cardiologista Victor Murad, de 90 anos, foi alvo de um envenenamento meticuloso que durou mais de um ano, segundo investigações da polícia. A ex-secretária Bruna Garcia, que trabalhava com o médico desde 2013, é a principal suspeita de ter administrado arsênio misturado em sua comida e água de coco na clínica onde atuavam.

Técnica incomum de perícia revela crime antigo

A confirmação do envenenamento só foi possível através de uma técnica forense incomum: a análise de fios de cabelo. Exames tradicionais de sangue e urina não conseguiram detectar a substância, pois o arsênio é eliminado rapidamente desses fluidos corporais com o passar do tempo.

"Se eu fosse usar amostra de sangue ou de urina, eu não conseguiria detectar porque já teria sido eliminado do organismo", explica Mariana Dadalto, perita da Polícia Científica do Espírito Santo. "O cabelo foi possível porque o arsênio continuou no cabelo, mesmo depois de 3 meses que não havia mais a exposição."

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Os fios capilar funcionam como um registro permanente da contaminação, pois a substância tóxica se incorpora à estrutura do cabelo e permanece detectável por meses. A análise de aproximadamente 15 centímetros de cabelo permitiu aos peritos reconstituir um histórico detalhado da exposição ao veneno.

Envenenamento durou mais de um ano

Os resultados toxicológicos indicaram que o médico foi intoxicado por pelo menos um ano e três meses. O arsênio começa a aparecer no bulbo capilar cerca de duas semanas após a ingestão, criando uma linha do tempo precisa da contaminação.

A investigação ganhou força quando uma funcionária encontrou um frasco de arsênio escondido em um depósito da clínica, logo após a demissão de Bruna Garcia. A perícia então enfrentou o desafio de provar a ingestão da substância meses depois dos eventos.

Curiosamente, a análise também revelou uma redução significativa da quantidade de arsênio no organismo de Murad após o afastamento da secretária, reforçando as suspeitas sobre sua participação.

Desvios financeiros e vida luxuosa

Paralelamente ao envenenamento, a investigação descobriu que Bruna Garcia desviou aproximadamente R$ 544 mil das finanças do médico ao longo de 12 anos. O cardiologista, que não utilizava ferramentas digitais como PIX, havia concedido controle total sobre suas contas à secretária.

"Confiava cegamente nela, foi esse meu mal. Acreditava nela, assim, ela encanta qualquer um. É uma serpente", desabafou Victor Murad em entrevista.

O dinheiro desviado financiou um padrão de vida luxuoso para Bruna, incluindo:

  • Viagens para a Disney
  • Estadias em hotéis de alto padrão
  • Saques frequentes de três a dez mil reais
  • Múltiplas transferências no mesmo dia

Enquanto isso, o médico via seu patrimônio diminuir sem explicações aparentes. "Quando eu fui uma vez questionar o gerente, falei: 'Como é que pode que meu saldo não sobe?'. O gerente dizia que eu estava gastando demais. E era ela que estava tirando o dinheiro", relatou Murad.

Sintomas graves e fechamento do consultório

Durante o período do envenenamento, Victor Murad apresentou uma série de sintomas debilitantes:

  1. Dores intensas e vômitos com sangue
  2. Anemia profunda e fraqueza nas pernas
  3. Agravamento dos tremores e rigidez da doença de Parkinson

O mal-estar constante foi tão severo que o cardiologista precisou fechar o consultório que mantinha há mais de 30 anos. Enquanto sofria com os efeitos do veneno, Bruna ostentava sua vida luxuosa nas redes sociais.

Teoria do Ministério Público

Para o promotor Rodrigo Monteiro, o envenenamento começou quando os desvios financeiros estavam prestes a ser descobertos. A intenção da secretária seria criar uma cortina de fumaça para afastar a responsabilidade pelos crimes financeiros através da morte da vítima.

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A polícia rastreou a origem do veneno utilizado e descobriu que a nota fiscal de compra estava em nome do marido de Bruna. Ele chegou a ser incluído nas investigações, mas foi posteriormente descartado por falta de indícios concretos de participação.

Defesa nega todas as acusações

Bruna Garcia está presa desde outubro e deve ser levada a júri popular por tentativa de homicídio qualificado. Seu advogado de defesa, James Gouveia, nega veementemente todas as acusações.

"Ter um laudo que foi envenenado não comprova que a Bruna o envenenou. Pode ter sido outra pessoa, pode ter sido acidental", argumentou o defensor.

Sobre os desvios financeiros, a defesa sustenta que toda a movimentação era de conhecimento do médico e devidamente autorizada por ele. Bruna é filha de uma antiga funcionária que trabalhou com Murad por duas décadas, o que criou um vínculo de confiança explorado no crime.

Recuperação e reflexão da vítima

Victor Murad segue em recuperação em sua residência, ainda processando a traição sofrida. "Sempre a tratei como se fosse uma filha minha, e ela tentando me matar. Ela te mata sorrindo", concluiu o cardiologista, emocionado.

O caso representa um exemplo marcante de como técnicas forenses inovadoras, como a análise capilar, podem ser cruciais para desvendar crimes complexos que permaneceriam ocultos através de métodos tradicionais de investigação.