Julgamento da maior chacina do DF avança com versões conflitantes dos réus
Os dois dias de interrogatórios dos cinco réus no julgamento da maior chacina da história do Distrito Federal foram marcados por narrativas divergentes e, em vários momentos, completamente contraditórias sobre a série de crimes que resultou na morte de dez pessoas de uma mesma família. As audiências revelaram estratégias de defesa distintas entre os acusados, enquanto o processo avança para a fase decisiva de debates perante o júri popular.
Cinco acusados, cinco versões diferentes
São acusados pelos crimes: Gideon Batista de Menezes, Horácio Carlos Ferreira Barbosa, Carlomam dos Santos Nogueira, Fabrício Silva Canhedo e Carlos Henrique Alves da Silva. Durante os interrogatórios, cada réu seguiu uma linha de defesa particular: enquanto alguns optaram pelo silêncio, outros admitiram participação parcial, e houve quem negasse completamente qualquer envolvimento nas mortes.
Após essa fase de interrogatórios, o júri entrou na etapa de debates nesta quinta-feira (16), quando acusação e defesa apresentam suas versões finais aos jurados. A acusação foi ouvida primeiro e indicou que não pretende usar o tempo de réplica. Nesta sexta-feira, serão ouvidos os advogados de cada um dos cinco réus, com cada banca tendo até 50 minutos para apresentar seus argumentos. Somente depois disso os jurados começarão a deliberação para decidir se os acusados são culpados ou inocentes.
As principais divergências entre os réus
As contradições mais significativas entre as versões dos réus giram em torno de três pontos centrais:
- Quem realmente liderava o grupo criminoso
- Qual era o plano inicial dos acusados
- Quem participou diretamente de cada uma das dez mortes
Gideon: o suposto líder que se diz vítima
Gideon Batista de Menezes é apontado pelo Ministério Público como líder do grupo e idealizador do plano criminoso. Ele trabalhava e morava na chácara de Marcos Antônio Lopes de Oliveira, uma das primeiras vítimas do caso. Durante seu interrogatório, Gideon negou participação ativa e afirmou que também foi vítima, dizendo que teria sido amarrado e levado ao cativeiro no dia do sequestro de Marcos.
Segundo sua versão, ele passou a participar das ações sob coação e era constantemente monitorado. O réu apresentou uma narrativa que contraria diretamente a investigação: afirmou que Thiago Belchior - uma das vítimas - teria liderado o plano criminoso e participado de assassinatos da própria família antes de ser morto. Gideon também disse que Horácio seria vítima dentro do grupo.
Segundo a denúncia, Gideon responde por: homicídios qualificados (incluindo as dez vítimas), extorsão mediante sequestro, ocultação e destruição de cadáver, associação criminosa, corrupção de menor, roubo e constrangimento ilegal.
Horácio: o direito ao silêncio
Horácio Carlos Ferreira Barbosa exerceu o direito de permanecer em silêncio e não respondeu a nenhuma pergunta durante seu interrogatório. Em nota, sua defesa afirmou que, embora seja "inegável" a ocorrência dos homicídios, não há comprovação suficiente da autoria. Segundo o advogado Sandro Soares Santos, a estratégia é técnica: cabe à acusação provar a culpa além de qualquer dúvida.
"A dúvida, ainda que mínima, tem que ser usada em benefício do meu cliente", declarou o defensor. Segundo a denúncia, Horácio responde por: homicídios qualificados, extorsão mediante sequestro, ocultação e destruição de cadáver, associação criminosa, corrupção de menor, roubo e fraude processual (por tentativa de apagar provas).
Fabrício: admite o plano, mas nega assassinatos
Fabrício Silva Canhedo afirmou que se associou a Gideon e Horácio para subtrair bens das vítimas, mas insistiu que o plano inicial não envolvia mortes. Ele disse que aceitou participar porque precisava de dinheiro para uma cirurgia do filho, e que deixou o grupo ao saber das mortes de Renata e Gabriela.
"Ele [Gideon] disse que era uma coisa que ia dar muito dinheiro e que o Horácio já tinha topado", relatou Fabrício. O réu disse que sua função era cuidar do cativeiro e preparar comida para as vítimas, que eram mantidas vendadas. Ele confirmou que esteve com Renata, Gabriela, Claudia, Ana Beatriz e Thiago, mas em nenhum momento citou participação de Thiago nos crimes. Ao final de seu depoimento, chorou e pediu perdão às famílias.
O Ministério Público não o aponta como executor direto das mortes, mas como participante do plano e responsável por apoio logístico, incluindo fornecer armas e manter o cativeiro. Segundo a denúncia, Fabrício responde por: extorsão mediante sequestro, associação criminosa, roubo e fraude processual.
Carlomam: admite disparo, mas alega acidente
Carlomam dos Santos Nogueira confessou que atirou em Marcos Antônio Lopes de Oliveira, mas insistiu que o disparo foi "acidental". Segundo sua versão, a vítima já estava rendida quando houve um embate, momento em que ocorreu o tiro "sem querer".
Carlomam relatou que, há algum tempo, era amigo de Fabrício Canhedo, outro réu. Eles teriam conversado que "teria uma fita para eles ganharem dinheiro", e que estavam passando por uma crise financeira que seria solucionada. Já Fabrício, em seu depoimento, afirmou que os dois foram "escolhidos" para participar e não citou que teria convidado Carlomam.
Segundo a denúncia, Carlomam responde por: homicídios qualificados, extorsão mediante sequestro, ocultação e destruição de cadáver, associação criminosa, corrupção de menor e roubo.
Carlos Henrique: admite roubo, mas não morte
Carlos Henrique Alves da Silva afirmou que participou apenas de um roubo contra Thiago Belchior. Segundo ele, a proposta era pegar o celular da vítima para que o grupo pudesse acessar aplicativos bancários, e ele receberia R$ 5 mil para dar apoio no assalto.
O réu disse que deixou o local com Thiago ainda vivo e que não sabia de qualquer plano de sequestro ou homicídio. Ele afirmou que o plano foi apresentado a ele por Gideon. O Ministério Público entende que ele contribuiu para a captura da vítima, o que levou à morte posteriormente. Segundo a denúncia, Carlos Henrique responde por: sequestro de Thiago e homicídio qualificado de Thiago.
A cronologia do crime segundo a denúncia
A investigação classificou o crime como um "plano cruel e torpe". Segundo o Ministério Público do Distrito Federal, os acusados atuaram de forma coordenada, com funções definidas e uso de violência extrema ao longo de semanas. A ordem cronológica dos eventos, conforme a denúncia, inclui:
- Outubro de 2022: Gideon, Horácio, Fabrício e Carlomam - e também um adolescente - se associam para cometer crimes.
- 27 de dezembro de 2022: Gideon, Horácio e Carlomam, acompanhados de um adolescente, vão até a chácara e rendem Marcos Antônio Lopes de Oliveira, sua esposa Renata Juliene Belchior, e a filha do casal, Gabriela Belchior. Cerca de R$ 49 mil são roubados, e as vítimas são levadas para um cativeiro em Planaltina, onde Marcos é morto e tem o corpo esquartejado.
- A partir de 28 de dezembro: Renata e Gabriela permanecem em cativeiro, e Fabrício chega ao local para assumir a função de vigilância.
- Entre 2 e 4 de janeiro de 2023: Cláudia Regina Marques de Oliveira e sua filha Ana Beatriz Marques de Oliveira são rendidas na casa onde moravam, no Lago Norte, têm bens roubados e são levadas para o mesmo cativeiro.
- 12 de janeiro de 2023: Thiago Gabriel Belchior é atraído até a chácara Quilombo após mensagens enviadas pelos criminosos e sequestrado com a ajuda de Carlos Henrique Alves da Silva.
- 12 e 13 de janeiro: usando o celular de Thiago, os criminosos convencem Elizamar (esposa de Thiago) a ir até a chácara com seus três filhos pequenos. Todos são rendidos e levados até uma rodovia em Cristalina (GO), onde são mortos por estrangulamento e têm o carro incendiado.
- 14 de janeiro: Renata e Gabriela Belchior, que estavam em cativeiro desde o início, são levadas até uma rodovia em Unaí (MG), mortas por estrangulamento e têm os corpos queimados dentro de um veículo.
- 15 de janeiro: Cláudia, Ana Beatriz e Thiago são levados até uma cisterna próxima ao cativeiro em Planaltina, onde são assassinados a golpes de faca e têm seus corpos jogados no local e cobertos com terra e cal.
- 16 de janeiro: parte do grupo tenta destruir provas, queimando objetos do cativeiro e alterando o local para dificultar o trabalho da perícia.
Entre os crimes apontados na denúncia da Promotoria de Justiça do Tribunal do Júri de Planaltina estão: homicídios qualificados (de 12 a 30 anos de prisão), extorsão (quatro a 10 anos), roubo (quatro a 10 anos), sequestro (dois a oito anos), constrangimento ilegal (três meses a um ano), fraude processual (três meses a dois anos), corrupção de menores (um a quatro anos) e ocultação e destruição de cadáver (um a três anos).



