Novas imagens revelam rua antes de execução de casal por policial militar no ES
Imagens mostram rua antes de execução de casal por PM no ES

Novas imagens revelam cena da rua momentos antes de execução de casal por policial militar no ES

Menos de 20 minutos antes de ser executada em Cariacica, na Grande Vitória, no dia 8 de abril, a última ligação feita por Francisca Chaguiana Dias Viana, de 31 anos, foi para o número 190, telefone de emergência para acionar a Polícia Militar. No Espírito Santo, o chamado é atendido pelo Centro Integrado de Operações de Defesa Social (Ciodes). A mulher foi executada junto com a companheira Daniele Toneto, de 45 anos, pelo policial militar Luiz Gustavo Xavier do Vale, em um crime que chocou o estado.

Detalhes da execução e cronologia dos fatos

A informação sobre a ligação feita às 9h46 da manhã foi confirmada pela irmã de Francisca, a vendedora Francisca das Chagas Dias Viana, de 37 anos, que ficou com o aparelho celular da irmã desde a morte. Às 10h02, uma primeira viatura chega ao bairro Cruzeiro do Sul, e Francisca acena para os policiais. Menos de um minuto depois, às 10h03, o cabo do Vale aparece com outros quatro policiais, seguindo a pé em direção ao casal, já com a arma na mão.

Francisca das Chagas confirmou que a irmã e a nora costumavam se desentender com a ex-mulher do PM e que o casal pensava até em levar para a Justiça o problema em relação à cobrança da energia rateada entre os apartamentos. Esse teria sido o motivo do começo da discussão entre as três no dia do crime, que pode ter sido motivada por uma discussão sobre ar-condicionado.

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Resposta da Polícia Militar e investigações em andamento

Procurada e questionada sobre o acionamento e se alguma das três viaturas que apareceram no local do crime foram enviadas por causa do chamado feito pela vítima, a Polícia Militar disse que "os detalhes solicitados serão apurados durante o Inquérito Policial Militar, instaurado para esclarecimento dos fatos, incluindo a dinâmica de acionamentos".

A assessoria da PM afirmou que "três viaturas estavam no local, sendo que uma delas estava atendendo a ocorrência de vias de fato gerada pelo Ciodes, a outra participou, em apoio, e a terceira viatura envolvida é a que transportou o cabo Vale ao local do crime". A nota não detalha, no entanto, se as viaturas foram ao local por acionamento feito pela vítima ou pelo cabo Xavier, que também solicitou apoio ao Ciodes.

Histórico das vítimas e planos interrompidos

Francisca Chaguiana era a filha mais nova entre quatro irmãos "Franciscos". Os nomes foram dados pela mãe, que mora em Lagoa do Mato, no interior do Maranhão, cidade natal da família. Ela se mudou para o Espírito Santo em 2018, quando soube que a irmã Francisca das Chagas estava grávida do terceiro filho, para ajudar a cuidar das crianças.

O relacionamento com Daniele começou pouco depois e as duas já estavam juntas há sete anos. No estado capixaba, Francisca Chaguiana trabalhou vendendo roupas e também em restaurantes, porque gostava muito de cozinhar, segundo a irmã. Nos últimos meses, transformou esse gosto em uma forma de empreender, e estava trabalhando com a companheira vendendo molho de pimenta e biscoitos.

"O pessoal do bairro até falava: 'olha lá a menina da pimenta'. Vendiam molho de pimenta, biscoitos e bolinhos. Andavam de motinha com baú para fazer as entregas. Minha irmã cozinhava muito bem, estava até fazendo curso de gastronomia, queria uma vida melhor", contou Francisca das Chagas.

Testemunhas e versões conflitantes sobre o crime

O crime aconteceu na noite do dia 8 de abril, no bairro Cruzeiro do Sul, em Cariacica, na Grande Vitória. De acordo com a apuração, a ex-mulher do militar ligou para ele relatando uma discussão com o casal e dizendo que o filho dos dois também estaria envolvido na situação. Testemunhas contaram que as duas vítimas e a ex-esposa do policial moravam em andares diferentes.

Segundo moradores, a ex-companheira do agente foi ameaçada pelo casal horas antes do crime. Ainda de acordo com testemunhas, a discussão começou por causa de um ar-condicionado. As mulheres trocavam acusações sobre um possível furto de energia, apesar de residirem em andares distintos.

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A ex-mulher do policial, que não quis se identificar, deu entrevista e apresentou a versão dela sobre o que aconteceu: "Elas testaram o meu limite, falando do meu filho de 8 anos, autista. Falaram que ele não seria autista, p**** nenhuma, porque ele estava jogando bola até altas horas da noite. Eu desci com uma faca. Nisso, juntaram as duas em cima de mim, me jogaram no muro, me bateram, puxaram o meu cabelo, quebraram a minha unha. A vizinha de baixo conseguiu separar a briga".

Seis policiais presenciaram o crime sem intervir

Seis policiais militares presenciaram o momento em que o cabo do Vale atirou contra Daniele Toneto e Francisca Chaguiana Dias Viana. Eles não fizeram nada para impedir a ação do policial. São eles:

  • Edson Luiz da Silva Verona (soldado)
  • Eduardo Ferro Coradini (soldado)
  • Filipe Gonçalves Vieira (soldado)
  • Hilario Antônio Nunes (cabo)
  • Lucas Nogueira Oliveira (aluno soldado)
  • Valfril do Carmo Carreiro (3º sargento)

Prisão do policial e processos em andamento

Após a morte das duas mulheres em Cariacica, a Justiça decretou a prisão preventiva do cabo do Vale, que segue detido no Quartel do Comando-Geral, em Vitória. A Polícia Militar também abriu um processo demissionário contra o militar.

"Já determinei a abertura do processo demissionário para o cabo do Vale, porque ele feriu a honra da instituição, o decoro, coisa com a qual nós não coadunamos. Nós saímos diariamente às ruas para proteger e servir as pessoas, então já está instaurado esse procedimento", afirmou o comandante-geral, coronel Ríodo Lopes Rubim.

Segundo ele, o prazo para conclusão do inquérito militar é de 20 dias, mas não há previsão para o término do processo demissionário. O comandante disse também que foi solicitado à Justiça Militar o afastamento cautelar dos outros agentes de todas as atividades exercidas por eles. Eles estão fora das ruas e tiveram as armas apreendidas.

Família das vítimas clama por justiça

Francisca das Chagas soube da morte da irmã e da cunhada pela televisão porque um conhecido ligou para ela no dia 8 de abril e falou para ela ligar a TV e ver o que estava passando no jornal. "Ele falou: 'vê o jornal porque está passando alguma coisa sobre a sua irmã'. Mas não contou o que era. Eu podia imaginar qualquer outra coisa menos isso", lamentou.

"Elas estavam felizes, fazendo planos. Eu quero Justiça, eu e a minha família, a família é grande, é o desejo de todos", encerrou. Francisca Chaguiana foi enterrada no Cemitério Jardim da Saudade, em Nova Rosa da Penha. Daniele foi enterrada no dia 9, também em Cariacica.