Madrasta acusada de envenenar enteados com 'chumbinho' enfrenta júri popular no Rio
O julgamento de Cíntia Mariano Dias Cabral, acusada de envenenar os dois enteados com o veneno conhecido como "chumbinho", teve início nesta quarta-feira (4) no III Tribunal do Júri do Rio de Janeiro. A ré responde por homicídio qualificado pela morte de Fernanda Cabral, de 22 anos, e por tentativa de homicídio contra Bruno Carvalho Cabral, que tinha 16 anos na época dos fatos, ocorridos em 2022.
Depoimento emocionante da vítima sobrevivente
O primeiro a depor foi Bruno Carvalho Cabral, irmão de Fernanda e vítima sobrevivente do caso. Ao relembrar o dia em que passou mal após almoçar na casa da madrasta, ele contou que percebeu algo estranho no prato. "Percebi que o gosto estava estranho e reparei muitos pontinhos azuis no feijão", relatou Bruno, visivelmente emocionado durante o depoimento.
O jovem detalhou que o episódio aconteceu após um simulado escolar em um sábado. Segundo ele, no dia anterior Cíntia o convidou para almoçar na casa onde ela morava com o pai dele. No tribunal, Bruno afirmou que estranhou a forma como a comida foi servida naquele dia. "Na hora de todo mundo se servir, ela já me deu o prato com feijão. Só o meu. O prato só com feijão. Achei estranho, mas tudo bem", disse.
Bruno também chorou quando foi questionado sobre a irmã, Fernanda Cabral, que morreu após um episódio semelhante. "Quando eu acordei nesse dia envenenado eu já soube que com ela (a irmã) tinha acontecido a mesma coisa", afirmou o jovem, que associou imediatamente seu mal-estar à morte da irmã.
Detalhes do suposto envenenamento
Após o almoço, Bruno disse que decidiu ir para a casa da mãe para contar o que havia acontecido. Segundo ele, naquele momento não imaginava que estivesse envenenado e chegou a se deitar. Pouco depois, passou mal. "Minha mãe disse que 10 minutos depois eu acordei com a língua toda enrolada e gritando por ela", contou.
O jovem relatou que acordou com sintomas graves e precisou de ajuda para se locomover. "Eu lembre que acordei muito suado e com uma dificuldade para andar. Para descer as escadas da casa eu precisei da ajuda da minha mãe porque eu não consegui descer sozinho. Chegando no hospital eu fiquei com dificuldade de enxergar", descreveu Bruno, que naquele momento já acreditava ter sido vítima de envenenamento.
O que diz a denúncia do Ministério Público
Segundo a denúncia, em 15 de março de 2022, a acusada teria colocado veneno na refeição de Fernanda. A jovem passou mal logo após comer, foi hospitalizada e morreu 13 dias depois. Em maio do mesmo ano, de acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), Cíntia teria repetido o método ao servir alimento contaminado a Bruno, que sobreviveu.
O Ministério Público sustenta que há prova da materialidade e da autoria. De acordo com os autos, as duas vítimas apresentaram sintomas compatíveis com intoxicação exógena por carbamato — princípio ativo do "chumbinho". Laudos periciais apontaram que a morte de Fernanda e as lesões sofridas por Bruno decorreram de ação química provocada por envenenamento.
A acusação também afirma que o crime foi praticado por motivo fútil, por ciúmes da relação dos jovens com o pai, Adeílson Jarbas Cabral, com quem Cíntia vivia havia 6 anos.
Confissões e investigações
Durante o processo, dois filhos biológicos da acusada afirmaram em juízo que a mãe confessou ter colocado veneno na comida dos enteados. Carla Mariano, filha de Cíntia, relatou: "Eu comecei a falar pra ela me contar, que eu precisava ouvir da boca dela. Eu perguntei por que ela puxou o prato dele (Bruno), ela falou que fez (envenenamento) e que puxou o prato por ter se arrependido".
O irmão dela, Lucas Mariano, também afirmou ter ouvido a mãe admitir o crime. "Ela admitiu de imediato que com o Bruno ela tentou (envenenar). Da Fernanda, ela tentou negar, mas depois ela falou", comentou Lucas.
Cíntia foi presa em maio de 2022, enquanto prestava depoimento na 33ª DP (Realengo). Antes da prisão, chegou a tentar se matar, segundo a investigação.
Etapas do julgamento e histórico do caso
O julgamento chegou a ser iniciado em outubro de 2025, mas foi interrompido após a defesa deixar o plenário. O Tribunal de Justiça do Rio remarcou o júri para 4 de março de 2026. O caso está sendo julgado pelo Tribunal do Júri, responsável por crimes dolosos contra a vida, como homicídio.
Setes jurados, cidadãos comuns sorteados entre pessoas previamente convocadas pela Justiça, são os responsáveis por decidir se Cíntia deve ser condenada ou absolvida. As etapas do julgamento incluem:
- Depoimento da vítima
- Depoimentos das testemunhas de acusação
- Depoimentos das testemunhas de defesa
- Interrogatório da ré
- Debates da acusação e defesa
- Réplica e tréplica
- Formulação dos quesitos e votação pelos jurados
- Proclamação do resultado pelo juiz
O corpo de Fernanda Cabral foi exumado um mês após a morte, já sob suspeita de envenenamento. Uma das análises feitas indicou que ela foi mesmo vítima de envenenamento. Durante audiências anteriores, a médica Marina de Carvalho, que atendeu a jovem no Hospital Albert Schweitzer, relatou que não suspeitou de envenenamento no primeiro momento.
Concluídos os debates, os jurados se reúnem em sala secreta para votar os quesitos formulados pelo juiz, que tratam da materialidade do crime, da autoria e das qualificadoras. A decisão é tomada por maioria dos votos. Após a votação, o juiz presidente proclama o resultado e, em caso de condenação, fixa a pena.
